segunda-feira, 17 de maio de 2010

A lasting impression

J. Crew é o nome que consta numa etiqueta de roupa norte-americana; ainda mais famosa nos últimos tempos, por ser uma das marcas de eleição de Michelle Obama. Para o catálogo de Fevereiro, enviaram a Portugal uma equipa de modelos e fotógrafos e fizeram uma produção de moda esplendorosa, entre Lisboa e Óbidos. Pelo caminho, exploraram o léxico, deliciaram-se com "the understated beauty of each setting and the easygoing elegance of every look" e acabaram a escrever uma "love letter to Lisbon".

Na hora da partida, seleccionaram "the places that left a lasting impression". E elegeram A Vida Portuguesa como o "best place to snag a souvenir", porque oferece "a delightful array of Portuguese-made goodies with old-world appeal, from soaps to oddly intriguing egg-yolk candies."

E foram-se com um "obrigado" na boca. "Thank you. The only Portuguese phrase the entire crew was able to pick up - and use properly. We said it a lot. Probably because we had a lot to be thankful for in a country with such exceptional charm, good food and gracious people." Obrigada nós.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

A trama do Alentejo

São uma tradição de longos séculos no Alentejo. As mantas alentejanas, usadas inicialmente pelos pastores para se protegerem do frio, foram com o tempo tornando-se peça essencial dos bragais da região. Podem ser usadas como colchas, mantas ou até tapetes e com as suas magníficas combinações de cores e padrões são hoje cobiçadas por muitos coleccionadores. A Fábrica Alentejana de Lanifícios de Reguengos de Monsaraz descende de uma outra, mais antiga, fundada em finais do séc. XIX. Ganhou medalhas em exposições internacionais nos anos 50 e, desde 1975, está nas mãos cuidadosas e empreendedoras da holandesa Mizette Nielsen. Hoje é a última fábrica a fazê-las. E em Lisboa, A Vida Portuguesa é a única loja a vendê-las.

Tecer a Tradição

Ligada à moda e às artes, fixou-se em Portugal na década de 1960. Foi directora de agâncias de modelos, produziu um filme do 007 e acabou rendida a Monsaraz e às mantas alentejanas, que pôs a circular pelo mundo. Hoje luta pela sobrevivência dos velhos teares. Texto de Gabriela Cerqueira. Fotografias de António Pedro Santos.

Mal galgamos a entrada, parece que recuámos décadas.(...) Estamos na Fábrica Alentejana de Lanifícios, que de fábrica só tem o nome, já que tudo é produzido em teares manuais e conta-se pelos dedos de uma mão quem aqui trabalha. Cheguei a ter 50 funcionários, diz Mizette Nielsen, que adquiriu a fábrica no conturbado período pós-25 de Abril, ainda as instalações eram no centro de Reguengos de Monsaraz. Nos anos 80, mudou tudo para este velho armazém e lagar de azeite, com uma área de 1.600 m2, para resolver o problema da falta de espaço. Hoje sobram-lhe salas e teares, com a queda brutal das encomendas e a escassez de mãos experientes: Antes era chique deixar o campo e trabalhar na fábrica. Agora ninguém quer.

Mizette assistiu à febre da destruição dos teares um pouco por todo o país e não permitiu que fizessem o mesmo em Reguengos. Mantém em uso os originais, provavelmente com cem anos, deixando os teares mecânicos desmontados, a um canto. Já vi iguais em museus da Holanda. Aqui ninguém se interessa em preservar o património, lamenta. Além dos que herdou da antiga fábrica, recolheu alguns para não irem parar à fogueira e outros foram-lhe oferecidos por quem queria desembaraçar-se deles. O projecto que apresentou para transformar este espaço em museu não foi avante, mas não deixa de receber grupos de turistas e visitas de escolas.

Tenho ali um tear recente mas não o uso, as mantas não saem tão perfeitas, comenta Fátima, uma das artesãs assíduas, enquanto passa a lançadeira e ajusta a trama. O tapete que está a finalizar já tem destino - um cliente holandês que fez a encomenda antes de voar até Portugal. Grande parte das peças produzidas responde a pedidos específicos, sobretudo de particulares mas também de empresas e hotéis. Usadas como colchas, tapetes e tapeçarias decorativas, as medidas e os padrões podem variar conforme o gosto do cliente, tendo como base as linhas tradicionais. Sempre em lã, sem qualquer mistura de fibras sintéticas, podem ter riscas, espigas, quadrados, castelos, losangos ou fuzis. Há quem envie fotografias de mantas deterioradas, herdadas dos avós, a pedir uma réplica. Em três dias, é terminada uma manta grande (com uma dimensão de dois metros e quarenta por três), mas já chegaram encomendas bem mais demoradas, como uma passadeira com 26 metros de comprimento.

O aconselhamento de tons e padrões é uma das funções que lhe dão mais gozo: É giro acompanhar as tendências de interior. Durante anos as encomendas incidiram sobre o preto e branco (para exportação), passaram depois ao cinzento e amarelo e, mais recentemente, aos tons terra, ferrugem e vermelho. Na última temporada, também o azul forte e o verde entraram na lista de pedidos, o que dá complicação pelas quantidades que é necessário mandar tingir - nunca menos de 500 kg de lã. Fico falida, diz, apontando para a carga recém-chegada. A lã é comprada em rama, lavada e fiada na Guarda e tingida em Mira de Aire. Antigamente todo o processo era feito na região. (...)

Última sobrevivente? Num congresso na Turquia, concluíram que a Fábrica de Lanifícios Alentejana será a única em funcionamento na Europa, com métodos manuais e seguindo os desenhos originais. Das pesquisas e contactos que tem feito, não encontrou nenhuma congénere europeia. Monsaraz sempre esteve na rota das migrações dos grandes rebanhos. A tradição laneira era muito forte: Os padrões remontam ao tempo dos mouros. os califas faziam o pagamento aos soldados com mantas castanhas e brancas, as mesmas da região. Li uma referência datada de 976 na biblioteca de Córdoba. Havia as mantas de pastor e até há poucos anos as mantas fetivas e de viagem eram obrigatórias em qualquer enxoval. As gentes da terra acabavam de pagar o calote com o dinheiro da apanha da azeitona.

Por toda a fábrica, acumulam-se amostras, algumas com etiquetas dos anos 20 e 30. Mizette continua fascinada com a qualidade e actualidade dos desenhos e tons das mantas de viagem. Como já não tem capacidade para as produzir, chegou a enviar amostras para uma fábrica do Norte. Seria uma pena que isto morresse aqui. Em vez de os designers matarem a cabeça à procura de novos padrões, porque não pegam nestes?

Mizette nasceu na Holanda, mas antes de se fixar em Portugal, em 1962, já tinha vivido em Inglaterra, França e espanha. Durante 12 anos foi directora de agências ligadas à moda, publicidade e cinema. Organizou o primeiro concurso Miss Portugal e esteve incumbida da produção de 007 Ao Serviço de Sua Majestade, o único da série rodado em Portugal. Mudou radicalmente o estilo de vida quando se entregou às mantas alentejanas: Quando me faltarem as energias, quem pega nisto?

Excertos da entrevista publicada na revista Tabu do jornal Sol, 7 de Maio de 2010.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

A palavra aos heróis

A Vida Portuguesa tem o pensamento em Vila do Conde, onde amanhã se inicia o primeiro Congresso sobre o Património Industrial. Que conta com a intervenção de dois verdadeiros heróis da produção nacional: o José Fernandes da Ach. Brito (que vai explicar como "Preservar o Passado, Estimular o Presente e Desafiar o Futuro") e o José Vieira da Viarco (com a sua análise sobre "Património Industrial: a Herança Desprezada"). A partir das 16h30 na sala 1 do Centro de Memória de Vila do Conde. Imperdível.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Salazar no MoMA

Inaugura amanhã, dia 13 de Maio, o “Destination Portugal” no MoMA de Nova Iorque. Entre os vários produtos que A Vida Portuguesa forneceu para esta ocasião está, imagine-se, o “Salazar”. O rapa tachos pode não ser um exclusivo português mas duvidamos que haja no mundo inteiro outro tão bem feito, com o seu cabo de madeira e a espátula de borracha macia.

Este utensílio culinário, cujo objectivo é evitar o desperdício, ganhou estatuto simbólico entre nós, baptizado popularmente com o nome do ditador. António de Oliveira Salazar, que governou o país durante 40 anos, apregoava a sua pobreza, chegando a afirmar que "um povo que tenha a coragem de ser pobre é um povo invencível". E enquanto a cartilha salazarista usava e abusava na sua propaganda de adjectivos como modesto, humilde, suficiente, singelo, remediado ou poupado, no dia-a-dia crescia o anedoctário popular inspirado pela sua lendária avareza.

O charme do nosso "Salazar" também não escapou às responsáveis pela loja do MoMA que, em Junho de 2009, passaram três horas no nosso espaço no Chiado. À saída, não pouparam nos elogios e agora alguns produtos A Vida Portuguesa estão na loja de Nova Iorque e até na loja MoMA de Tóquio.

terça-feira, 11 de maio de 2010

Milagre

Para celebrar Maio com fervor ou com humor... A Caixa Milagre, em cartão duro, contém: uma caixa de Nossa Senhora de Fátima fosforescente, um garrafão de água de Fátima, um cone de papel para vela de procissão, uma caixa de pavios para lamparina e uma máquina fotográfica com imagens de Fátima. Objectos de devoção portugueses: haja fé!

A Vida Portuguesa apresenta uma selecção de caixas e cabazes com temas sugestivos e recheios surpreendentes, acondicionados em palhinhas. Ofertas divertidas, inesperadas e sofisticadas para as ocasiões festivas, qualquer que seja a altura do ano.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

A Vida é um palco

"O que é popular é bom. A propósito do novo álbum dos Deolinda - banda revelação da revista Songlines - juntámo-los a Catarina Portas, da loja A Vida Portuguesa. Texto de Gonçalo Frota. Fotografias de António Pedro Santos.

(...) A situação encontra um eco natural na experiência de Catarina Portas à frente da loja A Vida Portuguesa, onde se vendem sabonetes Confiança, lápis Viarco ou andorinhas Bordalo Pinheiro, expostos em prateleiras que além dos produtos proporcionam viagens instantâneas ao passado. Ah, pois tem aqui estas coisas do tempo do Salazar, ouviu remorder umas quantas vezes ao balcão. Mas, por outro lado, lembra, alguém lhe segredou também que não conseguia arrastar a mãe para fora, por se tratar da loja perfeita para um comunista. As coisas podem tocar a todos de formas muito diferentes, concluem os cinco sem discussão.

Parolos chique. Agora que os Deolinda estão a lançar o segundo álbum, Dois Selos e Um Carimbo, custa até a crer que tenham passado pela típica história de levarem com portas no nariz antes de alguém acreditar sem reservas nas histórias cantadas por Ana Bacalhau. (...) Depois, reconhecem, com o sucesso crescente do álbum Canção ao Lado, foi fácil sentirem o afecto do público e tornou-se óbvio que as pessoas estavam à procura de uma forma de se reconciliarem com o seu passado. Diz Catarina Portas que tinha igualmente um feeling de que as pessoas precisavam disto, precisavam de gostar das suas coisas, de gostar do seu país. (...) Ana vai dizendo que o mergulho no passado é o antídoto óbvio para a normalização cultural a que assistimos nos últimos anos. Num mundo em que tudo é igual, em que se encontram os mesmos restaurantes em qualquer cidade do planeta, precisamos de algo que nos distinga. Luís José Martins, habitualmente atrás da guitarra, sintoniza o diagnóstico final com Catarina Portas e dizem quase a uma voz: A geração antes da nossa, que passou pela Revolução, tinha um enorme desencanto com o seu país, e enquanto eles viviam mais em negação com o passado nós já vivemos pacificamente com ele.

As variações de António. Tocava a Maria Albertina que António Variações deixara fechada dentro de uma caixa de sapatos, perdida numa cassete que resistiu estoicamente a duas décadas de esquecimento. Catarina Portas estava na Feira de Barcelos, quando ouviu a canção gritada por um leitor de CD numa banca e algo em si fez um clique que a lembrou da importância de Variações no seu projecto A Vida Portuguesa. Alguns anos antes, andara por aqueles lados a pesquisar a vida de Variações para um filme de João Maia sobre o músico português ao mesmo tempo que andava a perder manhãs e tardes enfiada em mercearias e drogarias a descobrir os produtos tradicionais que haviam de encher as prateleiras da sua loja. Entre Braga e Nova Iorque, a expressão emblemática que resumia a criação musical de Variações, também a quis para si. (...) Comecei a olhar para Portugal com os mesmos olhos com que olhava para a Índia e a comer selvaticamente com os olhos. E hoje em dia, excita-me imenso ir a Portugal. É uma arca magnífica para ir buscar coisas e transformá-las ou não."

Excertos da entrevista publicada na revista Tabu do jornal Sol, 7 de Maio de 2010. A Vida Portuguesa também colaborou com o videoclip do tema Um Contra o Outro, emprestando brinquedos como o táxi, o rapa e o pião. Brinquedos sem idade.