segunda-feira, 13 de outubro de 2014

"Voltou a cheirar a sabonetes dentro da velha fábrica Confiança"

"Braga celebrou 120.º aniversário da empresa abrindo ao público o histórico edifício que a acolheu no centro da cidade até há 12 anos. A autarquia, que comprou o espaço há dois anos, ainda procura financiamento para o reabilitar.

Há um gesto que se repete: levar o pequeno sabonete ao nariz para sentir o aroma a alfazema. Dezenas de pessoas fazem-no inconscientemente assim que recolhem a oferta da saboaria Confiança à chegada à sua antiga fábrica, em Braga. No velho edifício, encerrado há 12 anos, voltou a sentir-se o cheiro dos sabonetes que, durante um século, saíram dali para todos os pontos do país.
O perfume que anda no ar contrasta com o cenário que se contempla: os azulejos da entrada estão a cair, não há nem um vidro nas janelas e as escadas de pedra estão picadas, como se fossem feitas de madeira e estivessem carcomidas. “É um bocadinho triste ver isto assim”, confessa Teresa Pereira. Começou a trabalhar na Confiança em 1973 e hoje ainda é funcionária da empresa, que passou para um parque industrial nos arredores da cidade em 2002. “Já os meus [familiares] aqui trabalhavam”, conta.
Ainda sabe de cor o que funcionava em cada um dos espaços: os grandes cilindros que sobrevivem à ferrugem que neles se instalou acolhiam a massa dos sabonetes e as paredes de madeira do segundo piso protegiam a sala da tipografia da empresa, por exemplo. Isto, apesar de, desde que a fábrica no centro de Braga fechou, nunca mais aqui ter entrado. É por isso que, apesar da mágoa com que vê o estado de degradação do edifício, consegue encontrar “alguma felicidade” neste regresso.
Como Teresa, algumas dezenas de ex-funcionários aproveitaram o facto de a Câmara de Braga ter aberto a velha fábrica Confiança ao público neste fim-de-semana, a assinalar os 120 anos da sua fundação, para voltar àquele lugar. A firma foi criada em 12 de Outubro de 1894 e designava-se se então Silva Almeida & Ca. A iniciativa foi de Rosalvo da Silva Almeida, filho de bracarenses, mas nascido no Rio de Janeiro, que tinha 21 anos, e do seu cunhado, cinco anos mais velho, Manuel Santos Pereira.
Nessa primeira fase, a Confiança funcionava numa pequena oficina, no mesmo local do edifício que este fim-de-semana foi aberto ao público, uma construção inaugurada em 1921. Desde o seu início, a empresa começou a produzir sabões, sabonetes e perfumes que chegaram a todo o país. A firma chegou a ter 150 marcas diferentes. Na década de 1920, as 8000 caixas de sabonetes produzidas por mês representavam metade do consumo do país.
 “O nome de Braga chegou a todo o lado”, conta o designer e investigador Nuno Coelho, que dedicou a última década a estudar o material gráfico da empresa, o que deu origem à sua tese de doutoramento. “Os rótulos tinham quase sempre o nome da cidade”, acrescenta. Das mais de 1000 embalagens de produtos da Confiança por si recolhidas, apenas cerca de 20 não tinham “Braga” impresso.
Estes foram alguns dos pormenores do seu trabalho que Coelho contou a uma plateia de cerca de uma centena de pessoas, constituída sobretudo por familiares dos fundadores e antigos e actuais funcionários da Confiança, numa conferência que, na sexta-feira, iniciou o programa com que Braga assinalou os 120 anos de uma empresa marcante na sua história.
A fábrica pertence, desde 2012, ao município – custou 3,5 milhões de euros, num negócio polémico, que começou por ser uma expropriação e acabou em acordo com os proprietários. Nessa altura, foi lançado um concurso de ideias para decidir o destino a dar ao equipamento. Entre as 77 propostas apresentadas, foram selecionadas quatro, determinando que ali há espaço para acolher um pouco de tudo: de um hostel a uma incubadora de empresas de base tecnológica – aproveitando a proximidade da Universidade do Minho e do Instituto Ibérico de Nanotecnologia –, um centro de Ciência Viva e espaços de comércio de restauração. Além disso, a autarquia exigiu a instalação de um núcleo museológico dedicado à produção de sabonetes e perfumes naquele espaço. Recentemente, o presidente da Câmara, Ricardo Rio, prometeu também instalar ali a sede da Associação Académica da Universidade do Minho. O projecto está, no entanto, parado por falta de financiamento e deverá ser candidatado a fundos do próximo quadro comunitário de apoio, para viabilizar a reabilitação do espaço industrial."

Samuel Silva, Público

domingo, 12 de outubro de 2014

"Preservar a história de muitas gerações"

"Foi uma noite de encontros, a que se viveu anteontem nas antigas instalações da Fábrica Confiança. Numa sessão comemorativa dos 120 anos da empresa de sabonetes e perfumes de Braga, dezenas de antigos e atuais operários, assim como todas as pessoas que de alguma forma se encontram ligadas à sua história, reuniram-se no edifício que sonham um dia ver convertido num museu onde possam eternizar todas as memórias de uma vida.
Dentro daquelas quatro paredes já só restam duas caldeiras, tetos oleados, que ficaram de uma centena de anos de laboração e algumas portas que se vão desmoronando. "Quando entrei aqui hoje (anteontem) fiquei com uma tristeza enorme. Isto está vazio". As palavras são de António Alves Meireles, um antigo funcionário que se recorda de 42 anos "maravilhosos", a maioria dos quais passados como encarregado da tipografia.
Vagueando pelos quatro cantos do edifício, agora em degradação, o antigo funcionário vai recordando os anos áureos da fábrica, "com quase 400 trabalhadores". Mas também não esquece os momentos de crises profundas. "A maior recordação que tenho foi em 1964 quando a fábrica esteve no momento de cair", conta, lamentando os dias em que chegou a não ter papel para imprimir os rótulos dos sabonetes.

Ao seu lado, o amigo José Peixoto, que há 61 anos trabalha na empresa, prefere falar das festas que se faziam e da camaradagem entre funcionários e patrões. "Tínhamos muitas regalias, não nos faltava nada. Havia muitas festas entre funcionários", afirma, relatando ainda, com orgulho, o facto de ter sido um dos responsáveis pela criação de um teatro na Confiança.
Cheios de recordações, a vontade destes dois amigos - e também dos descendentes dos fundadores da empresa - é que o edifício não se transforme num negócio, mas antes num museu que volta a receber tudo aquilo que foi "destruído". Gostava de ver a fábrica com máquinas", desabafa António Meireles, enquanto José peixoto defende que "ter toda a história à disposição das pessoas era fundamental".
A Câmara de Braga, detentora do edifício, diz que neste momento não pode garantir nada em relação ao futuro da Confiança. Para já, o presidente, Ricardo Rio, expressa apenas o interesse em alocar a sede da Associação Académica no espaço.

"Apito da fábrica ainda está no meu ouvido"

Chama-se Maria Teresa Pereira Barbosa e é uma das duas netas vivas de Manuel dos Santos Pereira, um dos fundadores da Confiança. Aos 86 anos, recorda como se fosse hoje o apito da fábrica que ditava a entrada dos trabalhadores, às 7.55 horas, e orgulha-se que as centenas de pessoas que por ali passaram fossem "as bem cheirosas da cidade".
"Havia quase um apartheid entre as funcionárias da empresa de chapéus que ficava à nossa frente e as saboneteiras da nossa fábrica. Elas cheiravam mal por causa das peles e as saboneteiras cheiravam que era uma delícia", conta Maria, que não esquece também a alegria destes trabalhadores na altura do Natal, quando recebiam uma semana a mais de ordenado, "muito raro nas outras empresas".
Já José António Barbosa lembra o sentido visionário do seu bisavô e a importância que teve na cidade. Por isso, reclama também que a antiga fábrica dê lugar a um museu que possa perpetuar uma história que já conta 120 anos.

História da Confiança em livro e tese

Rosalvo da Silva Almeida e manuel dos Santos Pereira tinham 21 e 22 anos, respectivamente, quando fundaram a Confiança, em 1894. Começou sem mão de obra especializada e a média de produção cifrava-se nas mil caixas de sabão por mês. Já na primeira metade do século XX, compram-se novas máquinas e os primeiros carros. A história da fábrica foi tese de doutoramento do designer Nuno Coelho, e inspirou o livro "Memórias da minha memória de Maria Barbosa.

O FUNDADOR
Manuel dos Santos Pereira foi quem esteve mais anos à frente da Confiança. Até 1944, durante os 20 anos seguintes, a empresa esteve a cargo de José Peixoto de Almeida filho do sócio. A partir de 1964, a família perde a fábrica."

Sandra Freitas, Jornal de Notícias

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

"A Casa Deles" (também podia ser a nossa)

O bairro piscatório de Silvalde situa-se nos limites de Espinho, no norte de Portugal. A organização das ruas é ortogonal, regular, e as casas são normalmente geminadas. Cada uma tem tamanho e estrutura equivalentes às outras, diferenciando-se pelos materiais e iconografia.

Padrões de azulejaria complementares contrastam com caixilharias douradas. Em cima da porta, um santo que protege a casa. Materiais produzidos em massa ganham uma qualidade plástica surpreendente, quando coordenados cuidadosamente. A escassez de recursos incentiva uma criatividade indispensável e prática, a qual se operacionaliza com uma dedicação tal, que se torna poética.

Este registo, inevitavelmente distanciado, celebra o saber-fazer, o autodidata, o espontâneo. Evidencia encontros improváveis entre estéticas rurais e super-urbanas. E, de certa forma, comemora uma arquitectura ingénua, reflexo de uma realidade muito portuguesa, feita com meios escassos, improviso e imaginação.

"No velho bairro, as ruas estreitas e tortuosas, os antigos casebres esbeiçados que pendem em ruínas esfarpadas, as saliências das varandas de pau, empenadas e barrigudas, a fogueira de pinho que está dentro ardendo no lar, as creanças semi-nuas que sahem á rua, a smantas ou as redes de pesca, penduradas das janellas ou estendidas a enxugar em duas varas, teem um cunho muito característico, de um pitoresco oriental". Ramalho Ortigão em "As Praias de portugal", Livraria Universal, Porto 1876.

Isto escrevia Ramalho Ortigão das casas dos pescadores de Espinho, distribuindo estética e encantamento para o olhar do veraneante burguês confrontado com a miséria dos pescadores e o seu "pittoresco oriental".

Não é de hoje este tráfego difícil entre a cultura erudita e a cultura popular. Tivemos que esperar muito tempo para que o "bom gosto" da cultura cultivada encontrasse na realidade das coisas não uma simples arma de arremesso entre o "bom" e o "mau" gosto, mas apenas aquilo que essas coisas são. Gosto e desgosto são, afinal, sentimentos bastante relativos e não o jogo habitual do bom contra o mau-gosto enquanto exercício de distinção e classificação social e sobretudo de afirmação de quem pensa, como nas velhas academias, que a sua (suposta) superioridade cultural se pode simplesmente aquilatar pelo juízo que faz dos outros.

Casas são pequenos mundos, dispositivos que por fora dizem do que somos por dentro e do modo como podemos usar isso para comunicarmos uns com os outros: ser igual e diferente aos outros, eis a questão. O ornamento não é mais do que uma linguagem à procura de interlocutores.

Álvaro Domingues

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Bem conservadas até Londres


Abriu em Londres um restaurante, o Tincan, que faz brilhar a qualidade das conservas portuguesas, entre outras, reproduziu a receita do alfacinha Sol e Pesca, como noticia The Guardian: "The idea came after they discovered a tiny restaurant in Lisbon serving only tinned seafood. “We’ve combined two things we’re passionate about: food and design”. 

Lisboa a inspirar Londres. Porque é que isto não nos surpreende?


terça-feira, 7 de outubro de 2014

A loja ideal

"Tudo que vende na loja é fabricado em Portugal, pelo que este é o lugar ideal para encontrar lembranças bonitas e originais." FLAIR

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Comer com os olhos

Uma das mais deliciosas revistas portuguesas recomenda o nosso livro de receitas com miolo de papel reciclado e capa dura finamente ilustrada, feitos à mão, com esmero individual - capaz de se comer também com os olhos.

Indispensável em qualquer cozinha portuguesa, com certeza, é o livro onde se regista o assado da mãe, o bolo da tia, os sonhos com aquele toque que só a avó conhece e os tornam tão diferentes de todos os outros - e ainda mais matéria de sonho. Porque os livros de receitas também contam a história das famílias, das preferências à mesa, das gulas também fora dela; porque os livros de receitas merecem ser edições de capa dura para os corações moles - à venda n' A Vida Portuguesa.


 

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Da série "as caras por trás das marcas"

Da série "as caras por trás das marcas". Apresentamo-vos Sérgio Monte, o Senhor Chefe das apanhadeiras do Chá da Gorreana.
 
Cresce em pleno Atlântico, na ilha de São Miguel, nos Açores, uma raríssima plantação de chá europeia. A sua produção iniciou-se em 1874, com o conselho técnico de dois chineses mandados vir então com esse propósito.

Há cinco gerações na mesma família, a Gorreana é a mais antiga fábrica de chá da Europa ainda em funcionamento e merece hoje a visita, para testemunhar a história e o cuidado artesanal desta marca. Com uma plantação de 32 hectares, produz anualmente mais de 30 toneladas, pelo método Hysson, a vapor. O chá Gorreana declina-se em quatro variedades: Orange Pekoe, Pekoe, Broken Leaf e Verde.

Todos chás de aroma intenso e com a particularidade de não conhecerem os pesticidas, graças ao clima sempre húmido da ilha.