Este fim-de-semana, chegaram ao Ritz lisboeta conferencistas de todo o mundo (do México ao Japão, de Oslo a Beirute) que ouviram falar da preciosa manufactura portuguesa. E, estando em presença de marcas como a Ideal&Co, a Serrote, a Dr. Bayard e a Lona, é mais fácil perceber que a "Qualidade de Vida" também passa muito pela qualidade devida - aos produtos de todos os dias e de uma vida inteira.
segunda-feira, 20 de abril de 2015
O luxo da autenticidades
"Luxo pode ser ter dinheiro para jóias ou grandes marcas. Mas também
pode ser ter tempo. Um estilo de vida humanizado. Um ambiente onde se
respira autenticidade. Estabelecer uma relação afectiva com o que se
consome. Acreditar na memória como forma de projectar o futuro. E
privilegiar as ligações tangíveis ou as relações de proximidade.
“A nova definição de luxo não é grandes marcas,
semelhantes em todo o lado, mas a autenticidade, a história, a memória,
porque é isso que atrai as pessoas às cidades”, arriscou o director da Monocle, Tyler Brûle, este sábado, em Lisboa, na primeira conferência internacional desta revista de tendências.
O
ideal contemporâneo de qualidade de vida, de lazer, de consumo cultural
ou de sociabilização que emite a influente revista britânica de impacto
global passa por aí. Não surpreende, por isso, que para a conferência (The Monocle Quality Of Life)
tenha escolhido um painel que revelou personalidades, projectos e
práticas de todo o mundo, que acabam por atribuir sentido a essas
propriedades.
Também não espantou a escolha de Lisboa. Por um
lado, é a 9ª cidade do mundo onde a revista tem mais leitores e, por
outro, a conferência, que aconteceu no hotel Ritz, teve o apoio da
Secretaria de Estado do Turismo.
Para além de jornalistas,
estiveram presentes mais de 150 delegados, dos EUA, Japão, Austrália e
Europa, entre empresários, políticos, designers ou arquitectos, a
maioria representando empresas ou instituições que para fazerem parte da
experiência Monocle, durante três dias, desembolsaram 1.500 euros. “É muito? Depende da perspectiva”, diz-nos o búlgaro Ivan Koleliev, manager
numa empresa global de consultoria, sediada no Canadá, ligada a
projectos científicos. “Não é apenas o conhecimento, é também a
interacção ou as novas cooperações, ou seja, isto é também um
investimento.”
Durante a manhã de sábado, nos diferentes painéis,
os desafios do digital estiveram em evidência. Quando se discutiram os
meios de comunicação, por exemplo. O jornalista holandês Hans Nijenhuis,
do grupo de média NRC, defendeu a proximidade com os leitores, dizendo
não perceber a tendência para as redacções se afastarem dos centros das
cidades.
“Os jornalistas têm de estar no meio das pessoas”, disse,
exemplificando que o NRC tem o seu refeitório aberto ao público,
possibilitando a interacção com os jornalistas, e realiza regularmente
no seu espaço encontros, palestras e debates.
No núcleo da maior
parte das intervenções esteve a noção de “marca”, essa ideia de que é
possível uma publicação estar agregada a produtos ou acontecimentos se
tiver qualidade e credibilidade. “Um bom exemplo é este evento, o futuro
passa por aqui, pelas experiências”, atirou o americano Andrew Keen,
que acabou de editar o livro The Internet Is Not The Answer, lembrando a história de sucesso da Monocle
que, para além de revista, é também estação de rádio, cafés, lojas,
dois jornais semestrais, livros e agora também uma conferência.
O
tipógrafo e designer alemão Erik Spiekermann também defendeu que as
publicações têm de se reinventar fora do digital, dizendo que o modelo
de negócio gratuito não funciona. “A Internet é infinita, o que é
fantástico, mas as pessoas precisam de coisas que têm fim. Os jornais
são isso. É preciso seleccionar”, concordou Hans Nijenhuis.
“Se
dermos às pessoas apenas o que elas querem, sem irmos mais além, fazendo
um jornalismo de contabilização de cliques da Internet, qualquer dia só
publicamos vídeos de gatos”, ironizou Andrew Keen, comparando o
regresso do vinil – no campo da música – à reacção que prevê virá a
acontecer com os jornais.
“Irá haver uma reacção dos nativos
digitais”, disse, acrescentando que é errado achar que os jovens não
lêem artigos longos. “Todos queremos qualidade e boas histórias, de
preferência inclusivas, onde nos possamos rever, para além da questão
das idades”, concluiu Dorthe Riis, da TV dinamarquesa.
Os mesmos
conceitos estiveram na base do painel seguinte, onde o ponto de partida
era: “Como construir a casa perfeita”, em cidades que se querem
inclusivas e dinâmicas. O arquitecto brasileiro Isay Weinfeld disse que
tudo passa “por ouvir o cliente e respeitá-lo”, enquanto a designer e
directora criativa inglesa Ilse Crawford, conhecida por criar “espaços
públicos onde as pessoas se sentem em casa”, defendeu que as habitações
têm de ser pensadas realmente para serem vividas.
“Qualidade de
vida é escala humana, densidade, maximizar de forma integrada pequenos
espaços e olhar os problemas de forma humana, em conjunto com os
clientes, criando infra-estruturas inteiras, mas que guardem espaço para
a mudança”, defendeu o arquitecto de São Paulo, alegando que a ideia
futurista de “casa inteligente” já faz parte do presente, mas não é isso
que é decisivo. “O digital está lá, faz parte da casa, mas a sua
concepção não deve estar subordinada a esse facto.”
O sueco Oscar
Engelbert, que constrói e vende habitações, argumentou que, para além da
qualidade, o que acaba por criar mais-valia e apetência no comprador é a
memória do edifício.
Como num museu. “Porque é que em plena idade
digital as pessoas vão mais do que nunca a museus? Porque querem
autenticidade e qualidade. Querem o que apenas podem ver nos museus. Há
uns anos os museus assustaram-se com a idade digital. Mas a ‘grande
arte’ é sempre contemporânea”, afirmou o director do museu londrino
Victoria and Albert, o inglês Martin Roth, no painel onde se falou do
papel da cultura nas cidades, em particular os museus.
“Quanto
mais digitais somos, mais queremos a experiência da coisa autêntica",
afirmou o historiador de arte Taco Dibbits, do Rijksmuseum da Holanda,
secundado pelo director do Museu Palestino, Jack Persekian: “as pessoas
querem sentir de forma tangível. Querem tocar. Querem sentir que
pertencem e têm desejo de partilhar essa sensação de pertença com
outras.”
Falou-se também de identidades, claro. Em países
estabelecidos, como a Inglaterra ou a Holanda, "as colecções pertencem
ao mundo, deve existir partilha da memória", analisou Martin Roth. No
caso palestino, "olha-se mais o futuro", expôs Persekian, acrescentando
que é uma responsabilidade pensar “como é que um museu pode definir uma
nação.”
De preservação também se falou a propósito do regresso dos
fazedores, dos artífices, das técnicas e dos saberes que nas últimas
décadas se foram tornando raras e que agora é possível aplicar em novos
contextos. O galês David Hieatt fundou uma companhia de jeans com
operários de uma antiga fábrica, iniciando um bem-sucedido processo de
reconversão: “Não é apenas o produto final que interessa, é também o
processo. Em causa está um saber que se iria perder e que é garantia de
qualidade e distinção, ao mesmo tempo que também existe uma história, a
daquela fábrica e das suas pessoas, que deve ser valorizada.”
Dessa
possibilidade de juntar pessoas, às vezes antagonistas, à volta de um
projecto que as desloca do conflito, falou o libanês Kamal Mouzawak,
responsável por um mercado em Beirute que agrega tradições e
agricultores de pequena escala. “Make food, not war”, brincou ele,
falando da possibilidade de aproximar comunidades à volta do mesmo
objectivo.
Catarina Portas, fundadora de A Vida Portuguesa,
salientou que alguns países sabem comunicar o que têm para vender, “mas
deixaram de saber fazer”, porque não têm apostado na “transmissão do
saber, com memória, com diferença, com identidade.” É preciso uma outra
forma de olhar para as coisas, “mais tangível”, disse, lamentando que
não exista muita consciência dessa riqueza e herança, aqui.
Foi aí que Tyler Brûle
argumentou que Portugal era um país que “fazia sentido”, porque reunia
as características ali nomeadas por quase todos. “Autenticidade,
memória, sentido de lugar.”
Um luxo, portanto. O que falta para o activar? Longa conversa."
Vítor Belanciano, Público
sexta-feira, 17 de abril de 2015
A qualidade de vida por um monóculo
A Monocle não brinca em serviço e, no mês de Fevereiro, já recolhia imagens nas lojas e nos quiosques para o filme de apresentação de amanhã. Depois de, em Dezembro de 2009, ter eleito Catarina Portas entre os seus 20 heróis globais “que merecem um palco maior”, a revista de tendências chama-a agora ao palco da conferência mundial sobre "Qualidade de Vida" nas cidades. Que (estamos em crer não seja coincidência) decorre em Lisboa, a partir de hoje e até domingo. A lotação está esgotada mas a emissão pode ser acompanhada na rádio online.
O saber fazer português
A importância da proveniência das coisas e a mais-valia que a manufactura representa nos dias de hoje são temas em detaque amanhã, na conferência sobre “Qualidade de Vida” nas cidades futuras, organizada pela Monocle. E, aqui mesmo à nossa beira, são muitos os casos concretos e inspiradores de fábricas cujo primeiro compromisso é para com a qualidade devida.
segunda-feira, 13 de abril de 2015
Catarina Portas no palco da Monocle
A Monocle prepara a sua primeira conferência
internacional, dedicada ao tema “Qualidade de Vida”, a acontecer em Lisboa, no dia 18 de Abril de 2015. Entre
uma vintena de conferencista mundiais de renome, contam-se apenas dois
portugueses: Rui Moreira e Catarina Portas.
A acção decorre entre os dias 17 e 19 de Abril, e ao Hotel Ritz vão chegar o presidente da Câmara Municipal de Oslo, Stian Berger Røsland, o director do Victoria and Albert Museum, Martin Roth, o arquitecto brasileiro Isay Weinfeld e a designer Ilse Crawford, apenas para mencionar alguns daqueles que a Monocle escolheu a dedo para virem do mundo inteiro, pensar o devir da vida nas cidades. Por exemplo, reflectir sobre a reinvenção da “high street”, sobre o contributo dos meios de comunicação social, sobre a relação da urbe com a arte, sobre como construir melhores casas, escritórios e bairros. E dar visibilidade a casos de sucesso que podem ser adoptados noutras partes do planeta.
A Monocle já apontou por numerosas vezes, tanto nas páginas da revista como na rádio, as lojas d’ A Vida Portuguesa e os Quiosques de Refresco como dois exemplos inspiradores à escala mundial. E, em Dezembro de 2009, elegeu Catarina Portas como um dos seus 20 heróis globais, merecedores de “um palco maior”. Também a revista Wallpaper (anterior projecto do mesmo editor, Tyler Brûlé, e outra das bíblias das novas tendências), destacou a figura da empresária portuguesa entre os “talentos globais do futuro” na edição de Janeiro de 2011.
No painel que está agendado para as 12h45 de sábado dia 18, Catarina Portas (“founder of retail company A Vida Portuguesa, which promotes the Made in Portugal label, traditional brands and important crafts”) partilhará o palco com o activista alimentar libanês Kamal Mouzawak e David Hieatt, empresário de jeans do País de Gales. Vão discutir coisas como porque é que as cidades devem continuar a fabricar e a importância da proveniência dos produtos que consumimos para um mundo melhor, por exemplo.
A Monocle tem a sua base em Inglaterra, começou como uma revista mas é hoje um influente grupo de comunicação, e publica todos os anos um “quality of life survey” que se tem imposto como uma referência mundial. E parece cada vez mais determinada em deslindar os factores de mudança nas metrópoles actuais. Com a consciência de quem tem todo um futuro para preparar.
A Monocle já apontou por numerosas vezes, tanto nas páginas da revista como na rádio, as lojas d’ A Vida Portuguesa e os Quiosques de Refresco como dois exemplos inspiradores à escala mundial. E, em Dezembro de 2009, elegeu Catarina Portas como um dos seus 20 heróis globais, merecedores de “um palco maior”. Também a revista Wallpaper (anterior projecto do mesmo editor, Tyler Brûlé, e outra das bíblias das novas tendências), destacou a figura da empresária portuguesa entre os “talentos globais do futuro” na edição de Janeiro de 2011.
No painel que está agendado para as 12h45 de sábado dia 18, Catarina Portas (“founder of retail company A Vida Portuguesa, which promotes the Made in Portugal label, traditional brands and important crafts”) partilhará o palco com o activista alimentar libanês Kamal Mouzawak e David Hieatt, empresário de jeans do País de Gales. Vão discutir coisas como porque é que as cidades devem continuar a fabricar e a importância da proveniência dos produtos que consumimos para um mundo melhor, por exemplo.
A Monocle tem a sua base em Inglaterra, começou como uma revista mas é hoje um influente grupo de comunicação, e publica todos os anos um “quality of life survey” que se tem imposto como uma referência mundial. E parece cada vez mais determinada em deslindar os factores de mudança nas metrópoles actuais. Com a consciência de quem tem todo um futuro para preparar.
sexta-feira, 10 de abril de 2015
"Muito mais do que uma loja de presentes"
A Vida Portuguesa do Intendente e do Chiado entre as 18 coisas para amar em Lisboa. Palavra de alemão!
"Viel mehr als nur ein Souvenirladen: A Vida Portuguesa wurde von Journalistin Catarina Portas gegründet, nachdem sie alte, traditionell portugiesische Produkte erforscht hat. Fasziniert von historischen Verpackungen und durch Handwerkskunst geprägten Produkten, hat sie eine tolle Auswahl zusammengestellt und 2007 den ersten Laden eröffnet. Cremes, Seifen, Parfüms, Konserven und und und erzählen die vielen kleinen Geschichten des Landes. In Lissabon gibt es zwei Läden: in der Rua Anchieta, 11, Chiado und in der Largo do Indendente Pina Manique, 23, Intendente."
quinta-feira, 19 de março de 2015
De jornalista a empresária
“Catarina Portas é o rosto por detrás das lojas A Vida Portuguesa e dos Quiosques do Refresco. Ao fim de quase 20 anos como jornalista, depois de passar por rádios, jornais e televisões, lançou-se no mundo dos negócios e criou duas das marcas de maior sucesso e reconhecimento em Portugal.
Ao pesquisar a vida privada de Portugal no século XX, para um livro, constatou um facto curioso: diversos produtos e marcas portuguesas, da pasta de dentes Couto ao azeite de Oliva, mantiveram o mesmo logótipo e a mesma embalagem durante décadas (e, nalguns casos, durante mais de um século). Fascinada com essas marcas resistentes à passagem do tempo e apercebendo-se de que muitas estariam a desaparecer, decidiu recuperar estes produtos, ajudando assim a salvar parte da manufatura portuguesa.
Resolve então criar uma loja dedicada a revitalizar alguns dos produtos que refletem a história do consumo em Portugal. Nascia A Vida Portuguesa, uma loja cujo conceito é valorizar produtos portugueses que atravessaram gerações e que mantiveram as suas embalagens originais.
A partir daí, foi possível reeditar alguns produtos, como os sabonetes exclusivos que A Vida Portuguesa desenvolveu com a Confiança e a Ach.Brito, recuperando rótulos antigos, ou as oito embalagens históricas de lápis Viarco, as andorinhas Bordallo Pinheiro e ainda os cadernos da Emílio Braga.
Outros produtos que fazem as honras da casa, tornando-se irresistíveis para quase todos os visitantes: o saudoso chapéu de chuva de chocolate Regina, os sabonetes Claus Porto (que são fabricados desde 1887), a lavanda, a pasta medicinal Couto, o creme para as mãos Alantoíne, o pião de madeira, os chocolates Arcádia… entre muitos outros! A oferta também inclui géneros alimentícios, como barras de chocolate, conservas, azeites, cafés, chá Gorreana, bolachas, compotas e muitos outros artigos tradicionais.”
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