quarta-feira, 3 de junho de 2015

"Cerâmica com histórias dentro"

"Os designers Rute Rosa e Sérgio Vieira recorrem às antigas técnicas de cerâmica das Caldas da Rainha para criar peças novas e atrativas. Cada objeto que desenham tem um bocado de Portugal lá dentro. O Laboratório d’Estórias, a sua empresa, promete dar que falar.

Ela chama-se Rute Rosa, ele é Sérgio Vieira. Têm os dois 37 anos e são designers. Ela é do Seixal, ele nasceu em Viana do Castelo. Conheceram-se em 1995, na Escola Superior de Arte e Design das Caldas da Rainha, para onde foram estudar. Estão juntos desde então. Primeiro criaram a família – são casados – e em Junho deste ano lançaram uma empresa – Laboratório d’Estórias – e uma marca – Caldas Portugal.

Com um ano de vida e cinco peças à venda, a Laboratório d’Estórias tem já uma valente história para contar. O mérito é dos seus mentores, que aliaram o que sabem fazer (design), à tradição das Caldas (a cerâmica) e à cultura popular (cada peça conta uma história de Portugal). A primeira que criaram decorou montras de loja e mesas de restaurante em Lisboa por altura do Santo António e já enfeitou o Porto, no São João. Falamos do manjerico de cerâmica, verde ou branco, enfeitado com um cravo de papel e uma quadra de Fernando Pessoa. Quem o comprou também levou para casa uma bela embalagem com a história de A Medusa e o Manjerico e sementes da erva dos namorados. Rute Rosa explica o conceito do trabalho que quer continuar a desenvolver: «Mais do que uma empresa, o Laboratório d’Estórias é um espaço experimental e multidisciplinar que pretende valorizar e reinterpretar a cultura e as tradições portuguesas. Eu e o Sérgio decidimos fazê-lo através de objetos, que são sempre apresentados com uma história e uma ilustração. Neste contexto, só podíamos recuperar as antigas técnicas de manufatura da cerâmica caldense.»

Formada em design cerâmico e grande conhecedora do setor, Rute Rosa está convicta de que esse saber ancestral, outrora transmitido de geração em geração, está ameaçado devido ao encerramento da maioria das fábricas da região (ela era a coordenadora do departamento criativo da Secla, a gigante da cerâmica que fechou as portas em 2008) e ao modo de produção industrial entretanto adotado pelas poucas que sobreviveram: «O que carateriza e distingue a faiança das Caldas são as técnicas de modelação, pintura e vidragem. É um trabalho manual, que exige muito conhecimento e são poucas as pessoas que ainda o sabem fazer. Tivemos de as procurar e pedir-lhes ajuda.»

O mais surpreendente é que tudo isto exigiu um grande trabalho de pesquisa e foi feito num tempo recorde, explica Sérgio Vieira: «Tivemos a ideia para aí em março do ano passado, deitámos mãos à obra e nos primeiros dias de junho estávamos em Lisboa à procura de quem nos quisesse comprar o manjerico.» E quem se interessou pelo manjerico também encomendou A Alfacinha dos Caracóis, uma peça que o casal já tinha desenhado e pensava produzir mais tarde mas que viu o fabrico acelerado. Modelada a partir de uma folha de alface, serve para levar caracóis e outros petiscos à mesa e é vendida numa embalagem que narra e ilustra a história de uma menina de Lisboa que um dia teve de fazer um cerco aos caracóis. No interior, além da peça, que nos remete imediatamente para a louça típica das Caldas, também há dois palitos que podem ser usados para puxar os moluscos terrestres para fora da concha.

A Alfacinha dos Caracóis, também nasceu do trabalho conjunto de vários especialistas. E vai ser assim com todas as peças, adianta Sérgio Vieira: «Nós definimos o tema, fazemos o estudo, desenhamos a peça de maneira que seja exequível em termos de produção e pedimos a um modelador que a desenvolva. De seguida, há outro técnico que faz o molde, depois as amostras e finalmente manda-se fazer a madre. A partir da madre é que se fazem os vários moldes. É um trabalho que exige muita técnica e mestria.» As fases que se seguem – produção (com relevos), pintura e vidragem – são igualmente minuciosas e manuais: «São técnicas muito específicas que fazem de cada peça um objeto único e quase real.»

É deste trabalho de equipa – ainda há um ilustrador e uma pessoa que escreve as histórias – que estão a nascer novos objetos decorativos e funcionais que se têm revelado um sucesso junto dos consumidores: «De um dia para o outro, tínhamos várias lojas a contactar-nos e a querer vender o manjerico. Pensámos que era por causa dos santos populares, mas não. A procura continua. E com a alfacinha passou-se  o mesmo.»
Entretanto, Rute e Sérgio avançaram  com outros projetos. Todos em faiança, todos com histórias para contar. É o caso do Martinho, uma taça para comer castanhas; do Corvo Malandro, um belo pássaro decorativo; e das pilhas de Luz, os castiçais que nasceram para despertar o «Senhor Inverno. Todas as peças são feitas em cerâmica das Caldas, claro.  E como ideias é o que não falta ao jovem casal,  a continuar assim, o Laboratório d’Estórias promete dar que falar.

JOVENS PROMESSAS | Quando, nos primeiros dias de junho passado, Américo Rebelo, o proprietário de uma pequena fábrica (Lancer), aceitou o desafio de produzir quinhentos manjericos segundo as antigas técnicas de enchimento do molde (com barro líquido) e acabamentos manuais, pensou que era uma encomenda dirigida ao mercado dos santos populares: «Mas não, enganei-me. Os manjericos tiveram tanto sucesso que tivemos de fazer muitos mais. O mesmo com A Alfacinha dos Caracóis.» Para o senhor Américo, que passou a maior parte da vida a trabalhar o barro e a formar jovens ceramistas nas várias escolas onde deu aulas, o desafio que o casal lhe lançou trouxe uma lufada de ar fresco à sua empresa e permitiu-lhe matar as saudades do trabalho manufaturado: «Eles só me pedem coisas complicadas, mas tenho muito gosto no que faço e acredito que vai continuar a correr bem.»

Já Fernando Nicolau, proprietário e administrador da cerâmica Olfaire-Mendes & Nicolau, conhecia o trabalho de Rute Rosa e talvez por isso não tenha ficado surpreendido com o sucesso dos manjericos e das folhas de alface: «Ela é uma grande conhecedora do espírito da faiança das Caldas e adaptou-o bem ao mercado sem descaraterizar o produto», afirma o engenheiro. É na sua empresa (além da Bordalo Pinheiro, uma das poucas que continua a fabricar a loiça tradicional, sobretudo de mesa e só para o mercado de exportação dos EUA, Canadá, França e Reino Unido) que as peças são finalizadas, também de acordo com as antigas técnicas de pintura e vidragem da região, como os jovens criadores fazem questão. E como Fernando Nicolau gosta: «Sem financiamento não há condições para inovar, por isso limitamo-nos a sobreviver fazendo e vendendo o que sabemos fazer bem há três gerações. Mas não hesitamos em apoiar quem quer aprender e quem arrisca pôr um bom projeto em marcha», afirma o administrador do grupo. Quem um dia bateu à porta da Mendes & Nicolau para aprender as técnicas tradicionais de fabrico, moldagem, vidragem e pintura da louça caldense foi San Baron. Na altura, era um jovem desconhecido. Hoje o francês tem obra reconhecida e consagrada em todo o mundo. Quem sabe se Rute Rosa e Sérgio Vieira não seguem o mesmo caminho.

DE NOVO NA MODA | Falar da cerâmica das Caldas da Rainha é recuar no tempo e na memória e obriga a evocar a bonita história da cidade. Afinal, já a rainha Dona Leonor, no século xv, terá encomendado a oleiros locais a loiça que comprou para o Hospital Termal. Mas só quatrocentos anos depois é que a faiança das Caldas ganhou uma notoriedade que ainda hoje perdura.

A introdução do estilo naturalista na cerâmica caldense deve-se a Manuel Mafra, um artista local que se inspirou na obra de Bernard Palissy, o tipo de faiança que estava na moda na Europa, no final do século xix. Mas o nome que todos associamos à cidade e à loiça das Caldas é o de Rafael Bordalo Pinheiro. Foi o artista, na altura com obra já reconhecida no jornalismo, pintura, desenho e caricatura, que fundou a Fábrica de Faianças das Caldas da Rainha, onde criou Zé Povinho, Maria Paciência, O Padre e outras figuras satíricas da vida social e política do país; concebeu peças de louça decorativa e utilitária únicas no tamanho, forma, cor e arrojo; ganhou prémios internacionais, etc. Mais de cem anos depois e apesar das várias crises e dos muitos sobressaltos financeiros (até a Fábrica de Faianças Artísticas Bordalo Pinheiro teve de ser salva da falência em 2009), a louça das Caldas está aí para contar a história da região e do país. E voltou a estar na moda.

Por: Célia Rosa, Notícias Magazine
Fotografia: Henriques da Cunha/Global Imagens

segunda-feira, 25 de maio de 2015

"Everything Portuguese"

"A Vida Portuguesa shops in Chiado or Largo do intendente showcase everything Portuguese from tiles and rugs to food, candles, glass ceramics and old fashioned toys."


Na revista Baccarat, de Hong Kong

sexta-feira, 22 de maio de 2015

As linhas com que se cosem os azulejos

Ana Salazar, Joana Seixas, Anabela Teixeira, Sandra Celas: nenhuma delas perdeu a oportunidade de vestir a camisola da TILED. Que também quer dizer o vestido, a écharpe, as peças de vestuário que a inspiração ditar mas, sobretudo, vestir o azulejo.

Em 2014, uma artista visual, uma designer de moda e uma engenheira do ambiente começavam a costurar a ideia de passar os padrões dos formosos quadrados coloridos ao têxtil. Afinal, um revestimento com um resultado tão bonito nas paredes de norte a sul de Portugal também tinha que cair bem sobre a pele nua. Primeiro a das mulheres mas também já se começa a preparar uma colecção masculina.

Porque há uma base de dados - que é dizer padrões - em expansão, para alimentar esta marca moderna que quer fazer a ligação entre o design e a herança cultural. E que também quer desempenhar um papel na salvaguarda deste tremendo património, tendo aderido ao Programa de Investigação e Salvaguarda do Azulejo de Lisboa (PISAL) e desenvolvido uma linha exclusiva para o Museu Nacional do Azulejo.

Todas as outras peças já podem ser compradas - ou encomendadas n’ A Vida Portuguesa do Intendente - número 23 do largo, todos os dias das 10h30 às 19h30. Agora, na roupa como nas paredes, há uma história para contar.

Espalha azulejos

"Foi em 2014 que Ana Ventura decidiu despir os edifícios e vestir as pessoas. Assim, nasceu a tiled, uma marca original e criativa que utiliza os azulejos portugueses como padrão das suas peças. O Espalha-Factos esteve à conversa com duas das suas criadoras, Catarina Furtado, engenheira do ambiente, e Cristina Barradas, designer de moda, para perceber o crescente sucesso da marca portuguesa."
http://www.espalhafactos.com/2015/05/08/entrevista-ef-tiled-agora-andado-as-coisas-um-bocadinho-nossa-frente/

Azulejos em cadernos

Azulejos que se podem levar no bolso ou na mala. "Os cadernos da Beija-Flor são, sobretudo, obras de arte manuais", diz a revista Visão. E nós, que os temos em todas as lojas.

quarta-feira, 20 de maio de 2015

MARIA DE LOURDES MODESTO

Os americanos têm a Julia Child, os ingleses orgulham-se da Delia Smith, a nós calhou-nos em sorte (grande) Maria de Lourdes Modesto. Em 1958, a então professora de trabalhos manuais foi convidada a apresentar um programa cultural que acabou em formato culinário na RTP. E por 12 anos a eito, com um sucesso ainda por bater, entrou pelas cozinhas do grande (e guloso) público em directo, encorajando-o a anotar e enviar as receitas familiares e regionais.
Percorreu o país em ingredientes e meteu as mãos à massa de uma recolha exaustiva sem precedentes, que deixava apurar no regresso a casa; muitas vezes sobre esta antiga mesa de madeira, comprada num antiquário de Portalegre, que os seus fotógrafos tanto gostavam de usar como fundo para as imagens dos livros. E que ela, num gesto de grande generosidade, decidiu oferecer à Vida Portuguesa (do Largo do Intendente).
Como se não bastasse deixar-nos, entre outros, o livro de culinária mais vendido, mais lido e com maior índice de nódoas de gordura em todos os lares, esse tesouro nacional que é a “Cozinha Tradicional Portuguesa”.

terça-feira, 19 de maio de 2015

"A Companhia das Culturas ou a celebração de um lugar"

"Primeiro, um hotel rural. Agora, um aparthotel e um hammam na fazenda de São Bartolomeu, em Castro Marim. Em qualquer caso, um lugar com todas as suas vidas, cheiros e sabores.

Um lugar único, o Algarve d’aquém e de além-mar. Quem se sentar com o poeta Francisco Palma-Dias ouvirá logo falar nas maravilhas resultantes da fusão dos climas continental, mediterrânico e atlântico e de séculos e séculos de relações entre povos, sobretudo com os do outro lado do mar.

Conheci-o, já lá vão uns anos, a discorrer sobre os coentros como marca distintiva do Sul, a fazer o elogio da laranja do Algarve, do sal de Castro Marim, da batata-doce de Aljezur, da conquilha da baía de Monte Gordo, do pão de côdea rija do alto Algarve e do Alentejo, do porco preto que cresce no montado, alimentando-se da bolota que vai caindo do sobreiro e da azinheira.
Não diz que é “o quinto império dos sabores”. Diz que ali, naquele finalzinho de Europa, há uma conjugação única que dá origem a produtos de grande qualidade, como o azeite Monterosa, produzido por Detlev von Rosen, nas quintas de Moncarapacho, em Olhão. “Afirmá-lo não é ser paranóico, não é ser nacionalista, é ver o lado em que estamos, a cultura que nos caiu em cima, dar conta do que existe”, defende.

Não sonhou com um turismo rural. Andou em muitos lados. Regressou há 21 anos. A fazenda de São Bartolomeu, em Castro Marim, tem dois núcleos e um deles estava em ruínas. Ele e a nova mulher, a antropóloga Eglantina Monteiro, começaram a pensar num modo de dar sentido àquilo tudo. São sete gerações de uma família vinda da Catalunha quando era intensa a actividade na costa algarvia — a extracção de sal, a pesca da sardinha e do atum, a indústria da conserva. “O património passa por nós, não é nosso”, costuma dizer ela. “Já cá estava e há-de cá estar.”

Demoraram dez anos a idealizar e a concretizar essa espécie de celebração do lugar que é a Companhia das Culturas. Abriram-na há sete anos como hotel rural. Agora, acrescentaram-lhe um aparthotel e um hammam.

O aparthotel era só uma forma de diversificar a oferta, mas o hammam era uma resposta ao radicalismo religioso, que há tanto fez desaparecer aqueles banhos da Península Ibérica — primeiro do lado de lá, por acção dos Reis Católicos, depois do lado de cá, como consequência da Inquisição — e que está outra vez a propagar-se, ainda que noutros moldes, como uma praga impossível de erradicar.

Francisco e Eglantina tinham-no dito. Gostam de lembrar que as relações entre os povos dos dois lados do Mediterrâneo são fortes desde a Pré-História, embora nunca o tivessem sido tanto como quando a Península Ibérica e o Magrebe estiveram sob o mesmo domínio, o chamado período islâmico. E gostam de chamar a atenção para o quanto isso influenciou o lugar.

Tinha de ir ver. Tentaria perceber o que resta do período islâmico no Sotavento Algarvio e descansaria. Várias vezes procurei e encontrei a dose certa de silêncio na fazenda de 40 hectares de pinheiro manso, sobreiro, alfarrobeira, figueira, damasqueiro, laranjeira, oliveira, a um quilómetro e meio da praia Verde, a quatro da vila de Castro Marim, a seis da ria Formosa, de que Francisco tanto gaba a amêijoa, a ostra, o lingueirão.

Em tardes de distensão, já me entretive a adivinhar as vidas passadas de cada uma das divisões. A sala de pequenos-almoços/almoços/jantares foi a casa da cortiça e do mel. A sala-de-estar/biblioteca foi lagar de azeite. A sala de ioga, tai-chi ou qi-cong costumava ser a garagem da debulhadora. E os nove quartos serviram de abrigo ao fazendeiro ou ao caseiro ou aos animais.

“O nosso processo não é de construção, é de recuperação de ruínas”, gosta de explicar Eglantina. A frase também vale para os quatro apartamentos, situados no outro núcleo da fazenda, o que serve de habitação ao casal: já foram um ovil e um lagar de azeite. E neles, como no resto, prevalece a cal, o cimento afagado, a cortiça.

Nada parece ficar ao acaso. Tirando as camas, todo o mobiliário resulta de processos de recuperação com materiais locais, como madeira, cana, palma, junco. Há evidente repúdio pela produção desenfreada, pela cultura do descartável. “Em vez de ter coisas novas, é ter uma nova utilização das coisas”, diz Eglantina. Mistura as épocas e os estilos. “Isso é que é ser contemporâneo”, enfatiza. Acha que tudo se torna mais acolhedor se tiver passado — se tiver vários passados.

A transformação de mobiliário antigo faz-se na fazenda, mas não se comercializa, pelo menos por enquanto. O que já se começou a comercializar foram as compotas, os vinagres e os chutneys feitos com frutos da fazenda. Em breve haverá uma pequena loja, na zona da recepção, com produtos da quinta e de manufacturas de várias zonas do país, que ela vai descobrindo.

“As coisas têm acontecido à medida que nós vamos querendo responder às expectativas que as pessoas têm dentro do que é a nossa ideia de acolher”, resume Eglantina. “O que é acolher? Disponibilizar, dar o que é do lugar.”

A paisagem serve-se à mesa. Desde logo, sob a forma de ervas aromáticas, como o tomilho ou o funcho que crescem livres no barrocal, e de chás, sumos e compotas feitos com o que a fazenda vai produzindo. O resto vem de pequenos proprietários que vivem perto. A muxama, por exemplo, vem de uma unidade de transformação de peixe especializada em secos e salgados, como a estupeta, o sangacho, as ovas prensadas, os rabinhos, a espinheta ou as anchovas de biqueira, que Dâmaso Nascimento mantém a funcionar em Vila Real de Santo António.

A lógica vale para os petiscos, almoços e jantares. O menu respeita o ciclo das plantas silvestres, que ali vão do espargo à beldroega. Pedro Beleza, o chef, usa o conceito de dieta portuguesa, que tanto discute com Francisco. Funde a cozinha mediterrânica, tão devedora do pão, do azeite, do vinho, com os peixes do Atlântico e acrescenta-lhe as carnes da serra. “Pensei nos recursos que a fazenda tem, nos pescadores da baía de Montegordo, nos produtores de porco de montado, de um modo de mostrar o que temos de melhor a menos de cem quilómetros.”

Fazendo sentido, também usa produtos vindos de longe, como os couscous, de influência árabe, cuja produção continua em Trás-os-Montes e na Madeira. “Talvez para o ano comece a produzi-los aqui”, diz ele. “Quando cheguei, havia imenso albricoque em calda. Comecei a fazer vinagre. Estou a usá-lo para marinar carne.”

Usa a comida para despertar a curiosidade dos clientes. Faz, por exemplo, mormos de atum, julgando que isso lhes dá oportunidade de perceber que foi intensa a actividade na costa algarvia. O atum, que atravessava aquelas águas duas vezes por ano, desviou-se, a indústria definhou, mas o hábito de comer mormos ficou do tempo em que o peixe abundava e era desmanchado ali.

Está visto: a Companhia das Culturas emerge como pequena unidade de desenvolvimento local. Francisco lê, medita, apura receitas com plantas comestíveis. E Eglantina anda de um lado pra o outro, a ver se está tudo no ponto. “Eu sou a fazedora, mas isto é uma coisa muito pensada pelos dois”, diz ela. Ele está com 72 anos, ela com 59. “Nós, em determinada idade, achamos que vamos mudar o mundo. Nesta fase, já só queremos arranjar um pedacinho de ‘calçada’.” Estão a arranjá-la.
Um hammam a semear estrelas

A novidade do momento: a Companhia das Culturas, em Castro Marim, acaba de abrir um hammam. Tem um interesse económico. A antropóloga Eglantina Monteiro é a primeira a dizê-lo: “Estão na moda os spas.” Pode reforçar a marca como lugar de retiro. Mas há também uma vontade de convocar uma memória.

Pouco escapou à fúria do sismo que em 1755 foi seguido de um maremoto — e ao hábito de construir sobre o construído. De qualquer modo, não era ali que estavam os centros de poder de Al-Andalus. O Gharb al-Andalus foi uma região periférica. Não teria a arquitectura que se vê noutros lados.

Do período islâmico, no Sotavento algarvio dir-se-ia que quase só sobrevivem algumas construções cilíndricas de alvenaria, que serviriam de habitação, e ainda menos estruturas defensivas, mas não. “As marcas estão nos pormenores, no pomar, na casa, na intimidade, nas formas de estar”, observa Eglantina Monteiro. “Esta paisagem, a que muitos chamam natural, é profundamente cultural. Tem muitas heranças, inclusive a árabe, que introduziu aqui o pomar de sequeiro, com pequenas almoinhas, pequenos oásis, onde passa um pego de água.”

Numa linha de purificação do corpo, o profeta Maomé estimulou os banhos a vapor. Os árabes não se puseram a inventar, garante o arqueólogo Cláudio Torres, presidente do Campo Arqueológico de Mértola. Fizeram versões dos banhos greco-romanos. Adaptaram-se, conforme os climas e as águas.
O hammam clássico começa com um momento de relaxamento e transpiração — primeiro numa sala quente, depois noutra ainda mais quente. Entrando na sala de vapor, a pessoa deita-se numa mesa de mármore e é ensaboada e esfoliada, com luva de crina de cavalo. Segue então para a zona de arrefecimento.

Cada terra teria um número de banhos públicos ajustado à dimensão da população. Uma terra como Mértola teria só uns no largo principal da vila, exemplifica Cláudio Torres. “Temos zonas de continuidade, que ficaram sempre, mas os banhos públicos, com esta linguagem, desapareceram da arquitectura tradicional. Sofreu uma repressão com a Inquisição.”

O uso de banhos públicos e de termas era reprovado pela Igreja Católica, que os encarava como locais de preguiça e vaidade. Era muito mal visto ir a umas termas ou a um hammam. Propagou-se então a ideia de que tomar banho era mau para a saúde. Os banhos frequentes só voltaram em força à Europa quando a razão e a ciência se sobrepuseram às crenças e aos mitos.

A Companhia das Culturas quis recuperar a tal dimensão de purificação do corpo. “Optámos por uma arquitectura contemporânea que reporta à arquitectura dos hammans”, sublinha Eglantina Monteiro. “O que nos interessa é dialogar, entender, adaptar a uma dimensão contemporânea.”

A estrutura oval — a água escorre pela parede, não pinga — destaca-se do conjunto de apartamentos. Tem uma espécie de furos que saem do tecto. “Agrada-me o hammam com uma dimensão de luz”, diz ela. A luz faz desenhos nas paredes. “É uma dissertação sobre a arte de semear estrelas.”

A grande preocupação dela e do marido, Francisco Palma-Dias, é conhecer, entender o lugar, o ecossistema, e articularem-se com ele. Muitos dos óleos essenciais que usam no hammam provêm da Herdade de Vale Côvo, no Parque Natural do Vale do Guadiana, Mértola. É lá que François Goris destila ervas aromática que nascem livremente pela serra – alecrim, esteva, rosmaninho…"

Companhia das Culturas
Rua Jacinto Celorico Palma, 8950 Castro Marim
Tel.:  281 957 062 e 960 362 927

Ana Cristina Pereira
Público