segunda-feira, 25 de maio de 2015

"Everything Portuguese"

"A Vida Portuguesa shops in Chiado or Largo do intendente showcase everything Portuguese from tiles and rugs to food, candles, glass ceramics and old fashioned toys."


Na revista Baccarat, de Hong Kong

sexta-feira, 22 de maio de 2015

As linhas com que se cosem os azulejos

Ana Salazar, Joana Seixas, Anabela Teixeira, Sandra Celas: nenhuma delas perdeu a oportunidade de vestir a camisola da TILED. Que também quer dizer o vestido, a écharpe, as peças de vestuário que a inspiração ditar mas, sobretudo, vestir o azulejo.

Em 2014, uma artista visual, uma designer de moda e uma engenheira do ambiente começavam a costurar a ideia de passar os padrões dos formosos quadrados coloridos ao têxtil. Afinal, um revestimento com um resultado tão bonito nas paredes de norte a sul de Portugal também tinha que cair bem sobre a pele nua. Primeiro a das mulheres mas também já se começa a preparar uma colecção masculina.

Porque há uma base de dados - que é dizer padrões - em expansão, para alimentar esta marca moderna que quer fazer a ligação entre o design e a herança cultural. E que também quer desempenhar um papel na salvaguarda deste tremendo património, tendo aderido ao Programa de Investigação e Salvaguarda do Azulejo de Lisboa (PISAL) e desenvolvido uma linha exclusiva para o Museu Nacional do Azulejo.

Todas as outras peças já podem ser compradas - ou encomendadas n’ A Vida Portuguesa do Intendente - número 23 do largo, todos os dias das 10h30 às 19h30. Agora, na roupa como nas paredes, há uma história para contar.

Espalha azulejos

"Foi em 2014 que Ana Ventura decidiu despir os edifícios e vestir as pessoas. Assim, nasceu a tiled, uma marca original e criativa que utiliza os azulejos portugueses como padrão das suas peças. O Espalha-Factos esteve à conversa com duas das suas criadoras, Catarina Furtado, engenheira do ambiente, e Cristina Barradas, designer de moda, para perceber o crescente sucesso da marca portuguesa."
http://www.espalhafactos.com/2015/05/08/entrevista-ef-tiled-agora-andado-as-coisas-um-bocadinho-nossa-frente/

Azulejos em cadernos

Azulejos que se podem levar no bolso ou na mala. "Os cadernos da Beija-Flor são, sobretudo, obras de arte manuais", diz a revista Visão. E nós, que os temos em todas as lojas.

quarta-feira, 20 de maio de 2015

MARIA DE LOURDES MODESTO

Os americanos têm a Julia Child, os ingleses orgulham-se da Delia Smith, a nós calhou-nos em sorte (grande) Maria de Lourdes Modesto. Em 1958, a então professora de trabalhos manuais foi convidada a apresentar um programa cultural que acabou em formato culinário na RTP. E por 12 anos a eito, com um sucesso ainda por bater, entrou pelas cozinhas do grande (e guloso) público em directo, encorajando-o a anotar e enviar as receitas familiares e regionais.
Percorreu o país em ingredientes e meteu as mãos à massa de uma recolha exaustiva sem precedentes, que deixava apurar no regresso a casa; muitas vezes sobre esta antiga mesa de madeira, comprada num antiquário de Portalegre, que os seus fotógrafos tanto gostavam de usar como fundo para as imagens dos livros. E que ela, num gesto de grande generosidade, decidiu oferecer à Vida Portuguesa (do Largo do Intendente).
Como se não bastasse deixar-nos, entre outros, o livro de culinária mais vendido, mais lido e com maior índice de nódoas de gordura em todos os lares, esse tesouro nacional que é a “Cozinha Tradicional Portuguesa”.

terça-feira, 19 de maio de 2015

"A Companhia das Culturas ou a celebração de um lugar"

"Primeiro, um hotel rural. Agora, um aparthotel e um hammam na fazenda de São Bartolomeu, em Castro Marim. Em qualquer caso, um lugar com todas as suas vidas, cheiros e sabores.

Um lugar único, o Algarve d’aquém e de além-mar. Quem se sentar com o poeta Francisco Palma-Dias ouvirá logo falar nas maravilhas resultantes da fusão dos climas continental, mediterrânico e atlântico e de séculos e séculos de relações entre povos, sobretudo com os do outro lado do mar.

Conheci-o, já lá vão uns anos, a discorrer sobre os coentros como marca distintiva do Sul, a fazer o elogio da laranja do Algarve, do sal de Castro Marim, da batata-doce de Aljezur, da conquilha da baía de Monte Gordo, do pão de côdea rija do alto Algarve e do Alentejo, do porco preto que cresce no montado, alimentando-se da bolota que vai caindo do sobreiro e da azinheira.
Não diz que é “o quinto império dos sabores”. Diz que ali, naquele finalzinho de Europa, há uma conjugação única que dá origem a produtos de grande qualidade, como o azeite Monterosa, produzido por Detlev von Rosen, nas quintas de Moncarapacho, em Olhão. “Afirmá-lo não é ser paranóico, não é ser nacionalista, é ver o lado em que estamos, a cultura que nos caiu em cima, dar conta do que existe”, defende.

Não sonhou com um turismo rural. Andou em muitos lados. Regressou há 21 anos. A fazenda de São Bartolomeu, em Castro Marim, tem dois núcleos e um deles estava em ruínas. Ele e a nova mulher, a antropóloga Eglantina Monteiro, começaram a pensar num modo de dar sentido àquilo tudo. São sete gerações de uma família vinda da Catalunha quando era intensa a actividade na costa algarvia — a extracção de sal, a pesca da sardinha e do atum, a indústria da conserva. “O património passa por nós, não é nosso”, costuma dizer ela. “Já cá estava e há-de cá estar.”

Demoraram dez anos a idealizar e a concretizar essa espécie de celebração do lugar que é a Companhia das Culturas. Abriram-na há sete anos como hotel rural. Agora, acrescentaram-lhe um aparthotel e um hammam.

O aparthotel era só uma forma de diversificar a oferta, mas o hammam era uma resposta ao radicalismo religioso, que há tanto fez desaparecer aqueles banhos da Península Ibérica — primeiro do lado de lá, por acção dos Reis Católicos, depois do lado de cá, como consequência da Inquisição — e que está outra vez a propagar-se, ainda que noutros moldes, como uma praga impossível de erradicar.

Francisco e Eglantina tinham-no dito. Gostam de lembrar que as relações entre os povos dos dois lados do Mediterrâneo são fortes desde a Pré-História, embora nunca o tivessem sido tanto como quando a Península Ibérica e o Magrebe estiveram sob o mesmo domínio, o chamado período islâmico. E gostam de chamar a atenção para o quanto isso influenciou o lugar.

Tinha de ir ver. Tentaria perceber o que resta do período islâmico no Sotavento Algarvio e descansaria. Várias vezes procurei e encontrei a dose certa de silêncio na fazenda de 40 hectares de pinheiro manso, sobreiro, alfarrobeira, figueira, damasqueiro, laranjeira, oliveira, a um quilómetro e meio da praia Verde, a quatro da vila de Castro Marim, a seis da ria Formosa, de que Francisco tanto gaba a amêijoa, a ostra, o lingueirão.

Em tardes de distensão, já me entretive a adivinhar as vidas passadas de cada uma das divisões. A sala de pequenos-almoços/almoços/jantares foi a casa da cortiça e do mel. A sala-de-estar/biblioteca foi lagar de azeite. A sala de ioga, tai-chi ou qi-cong costumava ser a garagem da debulhadora. E os nove quartos serviram de abrigo ao fazendeiro ou ao caseiro ou aos animais.

“O nosso processo não é de construção, é de recuperação de ruínas”, gosta de explicar Eglantina. A frase também vale para os quatro apartamentos, situados no outro núcleo da fazenda, o que serve de habitação ao casal: já foram um ovil e um lagar de azeite. E neles, como no resto, prevalece a cal, o cimento afagado, a cortiça.

Nada parece ficar ao acaso. Tirando as camas, todo o mobiliário resulta de processos de recuperação com materiais locais, como madeira, cana, palma, junco. Há evidente repúdio pela produção desenfreada, pela cultura do descartável. “Em vez de ter coisas novas, é ter uma nova utilização das coisas”, diz Eglantina. Mistura as épocas e os estilos. “Isso é que é ser contemporâneo”, enfatiza. Acha que tudo se torna mais acolhedor se tiver passado — se tiver vários passados.

A transformação de mobiliário antigo faz-se na fazenda, mas não se comercializa, pelo menos por enquanto. O que já se começou a comercializar foram as compotas, os vinagres e os chutneys feitos com frutos da fazenda. Em breve haverá uma pequena loja, na zona da recepção, com produtos da quinta e de manufacturas de várias zonas do país, que ela vai descobrindo.

“As coisas têm acontecido à medida que nós vamos querendo responder às expectativas que as pessoas têm dentro do que é a nossa ideia de acolher”, resume Eglantina. “O que é acolher? Disponibilizar, dar o que é do lugar.”

A paisagem serve-se à mesa. Desde logo, sob a forma de ervas aromáticas, como o tomilho ou o funcho que crescem livres no barrocal, e de chás, sumos e compotas feitos com o que a fazenda vai produzindo. O resto vem de pequenos proprietários que vivem perto. A muxama, por exemplo, vem de uma unidade de transformação de peixe especializada em secos e salgados, como a estupeta, o sangacho, as ovas prensadas, os rabinhos, a espinheta ou as anchovas de biqueira, que Dâmaso Nascimento mantém a funcionar em Vila Real de Santo António.

A lógica vale para os petiscos, almoços e jantares. O menu respeita o ciclo das plantas silvestres, que ali vão do espargo à beldroega. Pedro Beleza, o chef, usa o conceito de dieta portuguesa, que tanto discute com Francisco. Funde a cozinha mediterrânica, tão devedora do pão, do azeite, do vinho, com os peixes do Atlântico e acrescenta-lhe as carnes da serra. “Pensei nos recursos que a fazenda tem, nos pescadores da baía de Montegordo, nos produtores de porco de montado, de um modo de mostrar o que temos de melhor a menos de cem quilómetros.”

Fazendo sentido, também usa produtos vindos de longe, como os couscous, de influência árabe, cuja produção continua em Trás-os-Montes e na Madeira. “Talvez para o ano comece a produzi-los aqui”, diz ele. “Quando cheguei, havia imenso albricoque em calda. Comecei a fazer vinagre. Estou a usá-lo para marinar carne.”

Usa a comida para despertar a curiosidade dos clientes. Faz, por exemplo, mormos de atum, julgando que isso lhes dá oportunidade de perceber que foi intensa a actividade na costa algarvia. O atum, que atravessava aquelas águas duas vezes por ano, desviou-se, a indústria definhou, mas o hábito de comer mormos ficou do tempo em que o peixe abundava e era desmanchado ali.

Está visto: a Companhia das Culturas emerge como pequena unidade de desenvolvimento local. Francisco lê, medita, apura receitas com plantas comestíveis. E Eglantina anda de um lado pra o outro, a ver se está tudo no ponto. “Eu sou a fazedora, mas isto é uma coisa muito pensada pelos dois”, diz ela. Ele está com 72 anos, ela com 59. “Nós, em determinada idade, achamos que vamos mudar o mundo. Nesta fase, já só queremos arranjar um pedacinho de ‘calçada’.” Estão a arranjá-la.
Um hammam a semear estrelas

A novidade do momento: a Companhia das Culturas, em Castro Marim, acaba de abrir um hammam. Tem um interesse económico. A antropóloga Eglantina Monteiro é a primeira a dizê-lo: “Estão na moda os spas.” Pode reforçar a marca como lugar de retiro. Mas há também uma vontade de convocar uma memória.

Pouco escapou à fúria do sismo que em 1755 foi seguido de um maremoto — e ao hábito de construir sobre o construído. De qualquer modo, não era ali que estavam os centros de poder de Al-Andalus. O Gharb al-Andalus foi uma região periférica. Não teria a arquitectura que se vê noutros lados.

Do período islâmico, no Sotavento algarvio dir-se-ia que quase só sobrevivem algumas construções cilíndricas de alvenaria, que serviriam de habitação, e ainda menos estruturas defensivas, mas não. “As marcas estão nos pormenores, no pomar, na casa, na intimidade, nas formas de estar”, observa Eglantina Monteiro. “Esta paisagem, a que muitos chamam natural, é profundamente cultural. Tem muitas heranças, inclusive a árabe, que introduziu aqui o pomar de sequeiro, com pequenas almoinhas, pequenos oásis, onde passa um pego de água.”

Numa linha de purificação do corpo, o profeta Maomé estimulou os banhos a vapor. Os árabes não se puseram a inventar, garante o arqueólogo Cláudio Torres, presidente do Campo Arqueológico de Mértola. Fizeram versões dos banhos greco-romanos. Adaptaram-se, conforme os climas e as águas.
O hammam clássico começa com um momento de relaxamento e transpiração — primeiro numa sala quente, depois noutra ainda mais quente. Entrando na sala de vapor, a pessoa deita-se numa mesa de mármore e é ensaboada e esfoliada, com luva de crina de cavalo. Segue então para a zona de arrefecimento.

Cada terra teria um número de banhos públicos ajustado à dimensão da população. Uma terra como Mértola teria só uns no largo principal da vila, exemplifica Cláudio Torres. “Temos zonas de continuidade, que ficaram sempre, mas os banhos públicos, com esta linguagem, desapareceram da arquitectura tradicional. Sofreu uma repressão com a Inquisição.”

O uso de banhos públicos e de termas era reprovado pela Igreja Católica, que os encarava como locais de preguiça e vaidade. Era muito mal visto ir a umas termas ou a um hammam. Propagou-se então a ideia de que tomar banho era mau para a saúde. Os banhos frequentes só voltaram em força à Europa quando a razão e a ciência se sobrepuseram às crenças e aos mitos.

A Companhia das Culturas quis recuperar a tal dimensão de purificação do corpo. “Optámos por uma arquitectura contemporânea que reporta à arquitectura dos hammans”, sublinha Eglantina Monteiro. “O que nos interessa é dialogar, entender, adaptar a uma dimensão contemporânea.”

A estrutura oval — a água escorre pela parede, não pinga — destaca-se do conjunto de apartamentos. Tem uma espécie de furos que saem do tecto. “Agrada-me o hammam com uma dimensão de luz”, diz ela. A luz faz desenhos nas paredes. “É uma dissertação sobre a arte de semear estrelas.”

A grande preocupação dela e do marido, Francisco Palma-Dias, é conhecer, entender o lugar, o ecossistema, e articularem-se com ele. Muitos dos óleos essenciais que usam no hammam provêm da Herdade de Vale Côvo, no Parque Natural do Vale do Guadiana, Mértola. É lá que François Goris destila ervas aromática que nascem livremente pela serra – alecrim, esteva, rosmaninho…"

Companhia das Culturas
Rua Jacinto Celorico Palma, 8950 Castro Marim
Tel.:  281 957 062 e 960 362 927

Ana Cristina Pereira
Público

segunda-feira, 18 de maio de 2015

Sortido de folhas

"Apresentamos o primeiro Caderno Sortido. Cada um vem recheado com 36 páginas de vários papéis cuidadosamente seleccionados: uns coloridos, outros translúcidos, alguns texturados e muitos quadriculados, reunidos numa deliciosa combinação que faz de cada caderno um convite irresistível ao desenho e à escrita. Tal como nas caixas de bombons ou nos sortidos de bolachas de qualidade, o difícil é escolher por onde começar." Serrote
Já disponível nas lojas A Vida Portuguesa.
Chiado | Intendente | Mercado da Ribeira | Porto

À moda de Gutenberg

Quando Johannes Gutenberg criou o tipo mecânico móvel, por volta de 1440, não imaginava por certo que estava a dar início à era da impressão e à sociedade de informação dos tempos modernos. A partir daí, o mundo até pareceu girar mais depressa e o desenvolvimento da tecnologia acompanhou-lhe o ritmo, com invenções cada vez mais aparatosas. Mas, no século de todas as tecnologias que é o nosso, ainda há uns poucos de bravos a usar aquela técnica original, que pode parecer obsoleta mas continua a produzir os mais preciosos e únicos trabalhos impressos.
Entre esses resistentes, encontra-se a dupla de designers das EdiçõesSerrote, Nuno Neves e Susana Vilela, que cunhou uma imagem muito própria, recriando temas profundamente ligados à cultura portuguesa (pegando em símbolos mais concretos, da toalha de mesa ao sabão azul e branco ou aos amores imortais como os que temos pela praia ou pelo futebol), com reviravoltas engraçadas e inesperadas.
Exemplares são os cadernos de edições esmeradas, limitadas e numeradas (como o especial e exclusivo concebido para a marca d’ A Vida Portuguesa), impressos numa antiga máquina Heidelberg. E que, de uma pequena oficina tipográfica em Sintra, acabam a correr mundo: um deles já chegou mesmo ao Pólo Norte.

Feito à mão

“A impressão do nosso novo caderno foi incluída no livro Made by Hand, editado pela Black Dog Publishing. A publicação é dedicada a projectos e a pessoas que continuam a produzir com técnicas tradicionais. Sapateiros, alfaiates, vidreiros, lutiers e tipógrafos, entre outros, contam as suas experiências profissionais, o que os influencia e porque gostam do que fazem.” Serrote

"Cadernos e livros impressos à moda de Gutenberg"

"Na Edições Serrote há cadernos sabão azul e branco, toalhas de mesa, livros que revelam a visão que os estrangeiros, em séculos passados, guardavam de Portugal. Tudo feito com os preceitos da tipografia inventada por Gutenberg no século XV. Nuno Neves e Susana Vilela inspiram-se na actualidade e com os carimbos centenários dão vida a cadernos de edição limitada.

O sabão azul e branco faz parte do imaginário nacional. Durante anos foi o produto de limpeza preferido das donas de casa. O Caderno Sabão Azul e Branco não lava a roupa, embora como diz o adágio popular «lava os olhos». As páginas, de padrão igual ao dito sabão, estão prontas para receber palavras inspiradas. Este é apenas um dos cadernos da Edições Serrote. 



Nuno Neves e Susana Vilela iniciaram o projecto em 2004 com a procura de «oficinas tipográficas em Lisboa com o objectivo de produzir um caderno que fosse impresso em tipografia antiga, com caracteres móveis, à maneira de Gutenberg, o alemão que no século XV desenvolveu tipos móveis em metal, uma técnica que permanece ainda hoje em tipografias mais antigas», explica Nuno.



Muitas das tipografias tradicionais fecharam portas. Uma houve que aceitou o desafio do professor de desenho e da designer gráfica. «No fundo de gavetas comidas pelo bicho encontrámos gravuras e letras de chumbo mordidas e gastas pelo tempo, que eram utilizadas desde há décadas para imprimir facturas e cartões-de-visita», relembra Nuno que, entretanto, deixou o ensino e se dedica em exclusivo à Serrote.


O primeiro caderno nasceu nos primeiros dias de Janeiro de 2005. Trata-se de um exemplar liso, de miolo azul, com a capa impressa a duas cores. Nuno e Susana ficaram com muitos carimbos que as tipografias ao fecharem iam rejeitar e com eles tentam passar para os cadernos as ideias que surgem. «As ideias chegam de todos os lados, do nosso dia-a-dia, das pessoas com que nos cruzamos. Tentamos conciliar o moderno com o mais antigo», diz.



Nos carimbos há animais, estrelas, flores. «Estamos limitados às gravuras e tipo de letras mas isso dá-nos vontade de ser mais criativos para fazermos coisas diferentes com o que temos», adianta Nuno Neves.



Ao primogénito caderno liso, juntaram-se outros, quase todos com apontamentos muito nacionais, como o sabão azul e branco, a toalha de mesa, estrelado, bolacha. Criar com estes símbolos é o principal desafio da empresa. Mas há outros. O mais recente prende-se com a impressão. Nuno revela que decidiram adquirir uma máquina de impressão e, nesse momento, a aventura Serrote conhece então novos traços.



«Trabalhávamos com tipografias antigas que têm fechado. Desde que temos a máquina o desafio é imprimir, porque antes só assistíamos à impressão e agora temos mesmo de a fazer e resolver problemas da máquina», diz Nuno com um sorriso, revelando paixão e dedicação por uma ideia que diz «dá para um pessoa viver disto, embora duas pessoas não consigam subsistir só com este negócio. As vendas ainda são poucas».



Os projectos, a impressão e o dobrar dos cadernos é tarefa que cabe a Nuno e Susana. Actualmente, «agrafar os cadernos ainda é feito numa gráfica». Um trabalho manual que torna cada caderno único, uma autentica peça de colecção até porque as edições são limitadas.



A Serrote tem também uma colecção de livros cujos autores continuam a ser Nuno e Susana. Em «Portugal a Cores» fazem uma compilação de excertos de relatos de estrangeiros de visita a Portugal nos séculos XVIII e XIX; em «Trás-os-Montes» falam da terra por detrás dos montes do Marão, Alvão, Cabreira e Gerês e para lá do rio Douro das suas fragas, burros e sardões; torques, chouriças e leirões; lobos, recos e berrões.



Um dicionário de francês, um sobre o Minho e um romanceiro tradicional são outros títulos dos livros Serrote, a editora que tem ainda um caixote com misturas improváveis. «O Caixote Serrote foi pensado e concebido para ser desfrutado ao ar livre, sob um céu azul ou um céu estrelado», afiança Nuno.



Dentro do caixote, uma caixa de pinho gravada a quente, pregada, com tampa, há um caderno sabão azul e branco, fio de balcão, emblemas bordados, um par de meias bicolor e outros tantos produtos (no total dez) «produzidos especialmente para este projecto pelas publicações Serrote ou em colaboração com outros fabricantes portugueses».



De ideia em ideia, vendendo e aplicando o dinheiro em novos projectos, Nuno e Susana comemoram já dez anos de Serrote. Na loja on-line, em lojas nacionais e também lá fora distribuem os seus cadernos, livros e caixotes que povoam o imaginário de memórias de infância pela puerilidade de cada desenho. "

Sara Pelicano

Café Portugal 

E a loja mais bonita do Porto é...

"Muy cerca de la librería (Lello), está la tienda más bonita de la cuidad, A Vida Portuguesa. Lugar perfecto para comprar todo tipo de productos portugueses: moda, diseño, menaje, téxtil… Un sueño de tienda; sus dueños se recorren Portugal, de norte a sur, para conseguir los productos más bellos del país." A loja do Porto entre as 11 propostas de Tensi Sanchéz a não perder na vibrante cidade invicta.

sexta-feira, 15 de maio de 2015

A veritable treasure trove

“The first store was in Lisbon, but ‘The Portuguese Life’ has been a big hit in Porto, too. Housed in a former textile showroom, it sells products from vintage Portuguese brands that are still going - in some cases largely thanks to this retailer. They range from soaps, olive oils and chocolates to toys and blankets. Rua Galeria de Paris 20 (22 202 2105 /www.avidaportuguesa.com). Open 10am-8pm Mon-Sat.”

quinta-feira, 14 de maio de 2015

Veneza no Intendente

Se um dia alguém se lembrou de meter o Rossio na Rua da Betesga, também nós havíamos de conseguir enfiar Veneza no Largo do Intendente. Foi o que fizemos, com este distinto serviço, “Venezia” de seu nome, agora a preços especiais de promoção, como as restantes linhas da Vista Alegre. Para que possa meter Veneza também em sua casa.

A alegria da cerâmica

Eduardo, Frederico e Guilherme até podem ter trazido para Portugal a prática do “foot-ball”, em 1886, mas quem interessa para esta história é o seu bisavô. Ou não tivesse José Ferreira Pinto Basto, figura liberal proeminente do país, fundado na antiga Capela da Vista Alegre, em 1824, a primeira unidade industrial dedicada à produção da porcelana. Mesmo sem saber dos abundantes jazigos de caulino (uma das componentes da pasta da cerâmica, com o quartzo e o feldspato) de Ílhavo, achados em 1832, e que tanto fizeram pela expansão da produção, assente inicialmente no “pó de pedra”. Presente nos lares modestos em ocasiões festivas, como em casas reais e presidenciais do mundo inteiro (qual insígnia portuguesa), foi marcando presença também no mercado da arte e continua a apostar nas colaborações com artistas contemporâneos. A fábrica faz hoje parte do maior grupo nacional e sexto maior mundial no sector de produtos de mesa, que dá pelo nome de Vista Alegre Atlantis.

"Louça que leva Portugal às mesas do mundo"

"O Grupo Vista Alegre Atlantis é composto por quatro unidades fabris: a fábrica de porcelana, a de cristal e vidro, a de loiça de forno e a de faiança. Quando fundou a Vista Alegre, José Pinto Basto criou uma série de infraestruturas (bairro social, infantário) que, no próximo ano, devem dar lugar a um hotel de cinco estrelas.

É uma das marcas mais carismáticas de Portugal. Ao longo de 190 anos de existência, a Vista Alegre (VA) destacou-se pela qualidade das suas porcelanas, reconhecida mundialmente, e por conseguir acompanhar as tendências do mercado, equilibrando a tradição e a modernidade. Uma fórmula de sucesso que leva a marca à mesa de grandes celebridades no mundo todo.

Quase dois séculos de história dão à VA “a credibilidade e o prestígio que poucas marcas têm. Não é comum em Portugal uma empresa aguentar 190 anos no mercado e continuar a ser uma referência”, refere Nuno Barra, diretor de marketing e design externo da Vista Alegre. Entrar em guerras de preços numa foi uma pretensão da marca, que primou sempre por manter um produto de qualidade. Daí que cerca de 20% da produção seja destruída, por não obedecer às exigências.

O reconhecimento de “Real Fábrica de Porcelana” logo após a sua fundação, pelas mãos de José Ferreira Pinto Basto, é, sem dúvida, um marco na história da VA, que começou por ser uma fábrica de vidro, até à descoberta do segredo da porcelana. Pinto Basto recrutou técnicos de outros países, onde já existiam fábricas, o que lhe permitiu desenvolver o negócio rapidamente. O crescimento manteve-se ao longo de largas décadas. No ano de 2001, a VA e a Atlantis deram origem ao Grupo Vista Alegre Atlantis, adquirido em 2009 pelo Grupo Visabeira.

Antes de integrar o grupo, a VA somava prejuízos que ultrapassavam os 18 milhões de euros. Adivinhava-se o fim de uma marca histórica. Com o terminar da dinastia familiar e a integração no grupo há “uma aposta na internacionalização e na comunicação, reestruturação, desenvolvimento do produto e renovação da rede de lojas”. Coube à Visabeira “manter o grau de exigência e reforçar o posicionamento da VA como marca premium”.

Fornecedora oficial da Presidência da República Portuguesa, a VA abastece, ainda, diversas casas reais, embaixadas e até a Casa Branca. Com a produção de porcelana doméstica, decorativa e hoteleira a marca consegue chegar a vários segmentos de mercado.

Enquanto outras marcas de porcelana deslocalizaram a produção para a Ásia, por exemplo, “com prejuízo para a qualidade”, como adverte Nuno Barra, a VA continua a produzir todos os produtos em Portugal. O principal mercado externo é Espanha, mantendo-se a aposta dos últimos anos no Brasil, onde a marca já está presente em 250 lojas premium. Atualmente, 56% da produção é exportada.

A aposta nos mercados externos tem sido uma estratégia para contornar a crise que se vive no País. “Quando apostámos na internacionalização, houve um mix de mercados que ajudaram a que a crise não tivesse tanto impacto. Vendíamos muito cristal para a Grécia, por exemplo, e o país caiu. Mas compensámos com o crescimento noutros países, como o Brasil”, explica o diretor de marketing. Para suportar essa aposta na internacionalização, “o desenvolvimento do produto sofreu alterações e a fábrica abriu-se para o exterior com a colaboração de designers e artistas estrangeiros”. A parceria com a marca de luxo Christian Lacroix surge, precisamente, com o objetivo de impulsionar essa estratégia. Presença assídua nas feiras internacionais, “nos últimos anos a VA é vista como aquela que apresenta mais novidades todos os anos”.

Nuno Barra não tem dúvidas de que a tradição e a história da marca têm um peso bastante significativo no mercado. E mais: “Assiste-se a um movimento internacional: as novas gerações precisam de se agarrar a algo com que se identifiquem e, por isso, agarram-se às tradições, reinventando-as.”

Entre os projetos para o futuro, o diretor de marketing e design externo destaca “a construção de uma fábrica em parceria com o IKEA para a produção de peças de grés, o projeto turístico para a zona da fábrica que abrange um hotel de cinco estrelas e ainda o projeto de vendas online para o mundo todo”. Os administradores acreditam que a venda online poderá sustentar o processo de internacionalização da marca."

JOANA CAPUCHO
Diário de Notícias

quarta-feira, 13 de maio de 2015

Ratinho vira economista

O Ratinho que, desde 1945, vem ensinando as contas da tabuadas a várias gerações de portugueses, acompanha a evolução dos tempos com esta nova série que inclui, entre outros, um "Manual de Economia". Que troca por miúdos (e para miúdos) as novas dinâmicas dos mercados comerciais, num manual de apoio de acordo com os conteúdos do currículo do ensino básico. Mais uma produção da Papelaria Fernandes, há 123 anos a ajudar-nos a fazer as contas à vida.

"Fernandes: Uma papelaria histórica preparada para conquistar o futuro"

"A sebenta, o bloco cavalinho, a tabuada Ratinho, há produtos que há muito atravessam gerações na Papelaria Fernandes. Ainda hoje estão nas montras, pois mesmo a olhar para o futuro, a mais popular papelaria de Lisboa não esquece o passado. E mesmo que tentasse José Pinto não deixaria. São 45 anos de histórias, aventuras, bons e maus momentos que também retratam uma parte dos 123 anos da Papelaria Fernandes.

O ano de 1969 pode parecer longínquo, mas quando Pinto (como é conhecido) fala daquele primeiro dia, parece que tinha acontecido ontem, tal é a forma pormenorizada que se recorda. Lembra-se como fez as contas todas certas – e “não era há moda da escola”, mas os “mais velhos” tinham-lhe explicado como se fazia – e como o chefe não quis ficar com ele. “Fizeste tudo bem, mas onde é que já se viu um canhoto a um balcão. Não serves para isso”, disse-lhe. O momento apenas reforçava o trauma de ser canhoto, que já vinha do tempo da escola, mas outros trabalhadores acabaram por convencer o patrão a ficar com Pinto. “Oh rapazinho, anda cá. És canhoto, mas podes servir para outra coisa”, disse-lhe.

Tinha 13 anos e muitas das histórias começam com a expressão “oh rapazinho”, como Pinto era tratado pelo seu chefe. Tudo era diferente na época e a forma como gosta de descrever é: “O tempo andava mais devagar nessa altura.” Refere-se à convivência entre empregados e clientes, às verdadeiras tertúlias que aconteciam espontaneamente porque muitos eram os que iam à papelaria comprar, mas que ficavam muito mais tempo só para conversar.

Relembra como as filas na loja Largo do Rato, onde trabalhou a maior parte do tempo, estendiam-se a perder de vista à hora de almoço, à espera da abertura das portas às 15 horas, quando as aulas começavam; os quilómetros que andava para entregar as encomendas ou como o chefe tinha pena e no inverno dava-lhe (e aos colegas) dinheiro para o autocarro; as “coboiadas” que ele e os colegas, também jovens, armavam quando estavam a arrumar material no armazém; e dá especial ênfase à obrigatoriedade de usar o fato completo: “Nem com calor podíamos tirar o casaco.” Isto até ao pós-25 de Abril quando foi a “anarquia total” no visual dos trabalhadores da Papelaria Fernandes.

Mas as calças… as calças de riscas que custaram 300 escudos marcam o início da carreira de Pinto na loja. “Eu vinha de uma família bastante humilde. Tinha a roupa dos miúdos daquela altura”, começa a contar. Depois de vestir uma camisa e gravata amarela que lhe foram emprestadas por outros colegas, aquelas calças era o sonho de Pinto para ficar mais elegante para trabalhar. “Ainda me lembro, era a loja ABC. Convenci a minha mãe a deixar-me comprar as calças.” O ordenado começou nos 200 escudos e foi subindo até aos 500 e como era menor, tinha direito a duas semanas de férias, enquanto os mais velhos só tinham uma. “Vim todo aprumado com a gravata e casaco azul [e as calças] e ouço: ‘Oh rapazinho, anda cá. Você hoje veio atrasado.’ Não, estou cá há muito, respondi. ‘Como é que não veio atrasado se ainda traz as calças do pijama? Vá já a casa mudar as calças.’ E agora? Como é que dizia à minha mãe que as calças não serviam para o trabalho?”

A carreira de Pinto foi progredindo e desempenhou muitas funções na Papelaria Fernandes. Aliás, deverá ter havido pouco que não tenha feito. As histórias de José Pinto multiplicam-se, sempre passando a ideia que então havia grande camaradagem entre os trabalhadores, que chegaram a ser 1500. As partidas eram muitas, de tal forma, que Pinto chegou ao ponto de desconfiar quando lhe pediram para ir comprar uma pedra para os calos. “Pensava que estava a brincar, mas afinal a pedra existia mesmo.”

Recorda como era proibido ter música e ele e mais uns rapazes improvisaram uma canções, fazendo o chefe pensar que tinham um rádio escondido. Ou então quando partiram uma televisão da senhora da ervanária, a quem tinham pedido emprestado para ver o Benfica, ou como resolveram enganar o rapaz madeirense, dizendo-lhe que a única forma de abrir uma torneira era dizer “abre-te sésamo” (havia um pedal que fazia a água sair). Esta última partida valeu-lhe a chamada do pai à papelaria e umas horas de medo, pois Pinto pensava que ia bater-lhe, o que não aconteceu.

Naquela época o cliente não mexia nos produtos. Ia ao balcão e pedia o que queria, nem que fosse apenas uma borracha. Até havia uma área dedicada apenas aos militares. Os mais novos tinham a função de fazer a reposição do material. Aproximava-se o 25 de Abril e Pinto recorda como o Largo do Rato viveu uma “fase tremida a nível político”. “Era o pandemónio com a polícia. Quando o comissário batia com a varinha no vidro, já sabia que tinha de tapá-los com papel cenário. Tapava-se as montras para as pessoas circularem.”

Depois do 25 de Abril também a Papelaria Fernandes entrou numa nova era, com os trabalhadores a reinvidicarem outros direitos (“com alguns concordava, outros não”, diz Pinto). À luta pelas 44 horas e às greves junta-se a “anarquia total” (como lhe chama) na forma como os empregados se apresentavam para trabalhar. Se então o casaco até já nem era obrigatório, o fato ficou completamente esquecido e deixou-se crescer o cabelo e o bigode, o que anos antes era impensável e completamente proibido.

Os anos 70 marcaram também a chegada das primeiras máquinas, começando a substituir o trabalho até então 100% manual. Mais tarde houve mesmo uma formação em computadores que Pinto participou, mas admite que gostaria de ter aprendido melhor. “Os mais velhos questionava para que serviam e eu devia ter ligado mais a isso.”

Em 45 anos conheceu várias figuras públicas, algumas só mais tarde ocupariam cargos de relevo na política, por exemplo. Amália Rodrigues, General Costa Gomes, Maria José Morgado, Maria de Lurdes Pintassilgo ou Manuela Ferreira Leite, são apenas alguns dos nomes que se recorda.

Quando a Papelaria Fernandes começou a abrir lojas em centros comerciais, José Pinto esteve envolvido em dois momentos que considera um dos mais felizes da sua carreira e outros um dos mais tristes. Esteve na abertura da loja no CascaisShopping e depois no seu encerramento, numa altura em que a papelaria entrou em insolvência e Pinto chegou mesmo a ir para o fundo do desemprego, em agosto de 2010. “Chorei que nem uma criança”, conta. Mas foram só três meses, pois houve quem não quisesse deixar morrer uma marca centenária e deu início a uma nova vida da Papelaria Fernandes, que pode já não contar com muitos dos seus trabalhadores (“era uma escola”, salienta José Pinto), mas foi buscar alguns, pois a sua experiência tem sido valiosa para a nova fase da história da papelaria.
“Agora já não almoçamos todos juntos, a seguir não vamos todos beber um copo, pois cada um tem o seu horário. Outros tempos…”, desabafa Pinto, que diz também já não fazer tantas partidas, versão imediatamente desmentida por Jorge Leal, o diretor comercial.

Pinto continua na loja do Largo do Rato, uma das cinco existentes em Lisboa, numa altura em que a Papelaria Fernandes vai renascendo, mantendo a ligação às suas raízes, mas com olhos no futuro, como exemplifica a aposta na representação exclusiva de uma marca italiana, a Campo Marzio, que está à venda na loja da Rua do Ouro, número 167, desde o final de outubro.

Jorge Leal explica que foi um acionista que não quis deixar cair a marca Papelaria Fernandes e criou a Papetarget. As lojas da Rua do Ouro e do Largo do Rato nunca chegaram a fechar e foram o ponto de partida da nova vida. 12 pessoas começaram essa fase. Hoje são 28.

Se há produtos que seria estranho não ver na Papelaria Fernandes, Jorge Leal salienta que além do reforço do material já amplamente conhecido, olha-se agora para o estrangeiro e a Papetarget já é representante exclusiva da Nunna, além da Campo Marzio. No caso da Nunna, marca alemã, os notebooks coloridos apontam a um público diferente, sendo bem diferente dos tradicionais Flecha, que continua a ser muito procurados.

Já a Campo Marzio traz para Portugal material de escrita e complementos de escritório “muito fashion”, como descreve o diretor comercial. “Não tem nada a ver com o produto tradicional”, garante. Malas, porta-chaves, encontra-se um pouco de tudo, “com design muito italiano, com muita cor e não de preço elevado”. São passos que a Papelaria Fernandes vai dando rumo a uma nova consolidação da marca, para já em Lisboa, mas para o futuro há muita confiança."

ELISABETE SILVA

A 13 de Maio n' A Vida Portuguesa

A caixa "Milagre" integrava as primeiras séries de selecções de surpreendentes artigos portugueses que começaram a fazer A Vida Portuguesa. Tivemos que deixar de a vender à medida que partes do seu conteúdo iam sendo descontinuadas - e não haviam santinhos que nos valessem. Mas saiba que ainda hoje, tantos anos volvidos, pode vir cá, fazer a sua própria escolha e criar a sua (ou dos seus amores) especialíssima caixa única. Seja 13 de Maio ou outro dia qualquer. Com ou sem intervenção divina - deixamos isso ao seu critério.

A Vida Portuguesa
Chiado | Intendente | Mercado da Ribeira | Porto
http://loja.avidaportuguesa.com/pt/

segunda-feira, 11 de maio de 2015

As Caldas de Bordalo

Passeio do Centro Nacional de Cultura: sábado, 23 de Maio
A vida de Rafael Bordalo Pinheiro está intimamente ligada às Caldas da Rainha, onde em 1884 estabeleceu a sua fábrica de cerâmica. Aproveitando o lançamento do livro de Isabel Castanheira, As Caldas de Bordalo, o Centro Nacional de Cultura em colaboração com o Museu Bordalo Pinheiro /Câmara Municipal de Lisboa, promove uma visita às Caldas da Rainha, tendo como enfoque os vestígios bordalianos.
Bordalo escolheu as Caldas para fazer a sua fábrica por considerar ser esta a região do país com melhores condições de produção, onde já havia uma importante tradição barrista. Foi aqui que realizou as suas mais conhecidas obras cerâmicas, passando o seu imaginário delirante magnificas peças de barro.
Vamos passear com Bordalo e visitar alguns edifícios com azulejos da sua autoria e também os Museus onde a sua obra está guardada: O Museu Malhoa, a Casa Museu San Rafael e o Museu de Cerâmica. A visita será guiada pela própria autora e grande especialista da obra de Bordalo Pinheiro. No dia 16 de maio terá lugar o lançamento do livro no Museu Bordalo Pinheiro em Lisboa.”
Mais informações e inscrições:
alexandra.prista@cnc.pt ou 213 466 722

"Quando a cerâmica é rainha e o Zé Povinho manda"

"Criada por Raphael Bordallo Pinheiro em 1884, a mais emblemática fábrica de cerâmica em Portugal viveu vários momentos de glória e também de aflição financeira. Esteve nas mãos da família Bordallo Pinheiro até 1920. Em 2009 quase fechou portas mas foi comprada pela Visabeira que a revitalizou.
No mesmo ano em que Portugal assiste ao nascimento do Partido Socialista e Eça de Queiroz publica o célebre romance O Crime do Padre Amaro, é criado o boneco dos bonecos da arte popular portuguesa, o Zé Povinho, figura marcante da caricatura de Raphael Bordallo Pinheiro. De calças remendadas, botas rotas, cabeleira farta e desarrumada, incarnado num boçal camponês analfabeto, eterna vítima da classe política, usando o manguito para exprimir a sua raiva, o Zé apareceu pela primeira vez a 2 de junho de 1875 nas páginas d’A Lanterna Mágica, um dos jornais humorísticos que Bordallo dirigiu e ilustrou. Esta figura está intimamente associado à cerâmica das Caldas, nomeadamente à Fábrica Faianças Artísticas Bordalo Pinheiro, que o próprio ceramista, ilustrador e caricaturista criou em 1884, juntamente com o seu irmão Feliciano, com o propósito de revitalizar as artes tradicionais da cerâmica e do barro. Além da fábrica, Bordallo decidiu construir um espaço amplo, bonito, com qualidade de vida para os trabalhadores, que chegaram mesmo a ter uma escola primária para os seus filhos, tal a importância que a empresa assumia.
O Zé (também batizado por “Toma”), figura identificativa do povo português, criticando de forma humorística os principais problemas sociais, políticos e económicos do País, é retratado em cerca de 300 diferentes desenhos, em distintas poses, com ou sem manguito. A Fábrica, desde 2009 nas mãos da Visabeira, continua a inovar e criar produtos contemporâneos, faianças decorativas com motivos e ambientes tradicionais e manteve o espírito crítico do seu fundador. A prova disso, foi que continuou a lançar o famoso boneco, adaptado aos tempos. Um dos últimos, em 2011, um “Toma” à Moody’s, a agência de notação financeira que baixou o rating da dívida portuguesa para o nível de lixo.
Atualmente e passados 130 anos da sua criação, a mais famosa fábrica de cerâmica do País dá emprego a 173 pessoas, que são responsáveis pela saída, diariamente, de cerca de 3000 peças, desde as decorativas, as de mesa e peças de edições especiais.
O trabalho que se faz nas Caldas permite uma faturação de 3,4 milhões de euros, permitindo desta forma a saúde financeira da empresa. Mas esta não foi sempre a realidade da Bordalo Pinheiro, que apesar do reconhecimento nacional e internacional das suas peças, que lhe valeram uma série de prémios e homenagens – medalha de ouro na Exposição Colombiana de Madrid (1892), em Antuérpia (1894), Paris (1900) e EUA (1904), a título individual Bordallo Pinheiro recebeu a medalha de prata e o grau de Cavaleiro da Legião de Honra, pelo trabalho no Pavilhão de Portugal na Exposição Universal de Paris – esteve em risco de fechar as portas por diversas vezes.
Mais recentemente a falência só não aconteceu porque a Visabeira, a pedido do antigo ministro da Economia, Manuel Pinto, a salvou da falência, em 2009, e lhe deu uma nova vida.
Nuno Barra, diretor de marketing e design externo da Bordalo Pinheiro, diz que o investimento feito pela Visabeira na fábrica caldense já “superou largamente os dois milhões de euros”. E, segundo explica, verificou-se em várias áreas da empresa, nomeadamente na “reparação e modernização de equipamentos, na reparação de diversos fornos de cozedura, obras de requalificação da unidade fabril e da loja, impressão de vários materiais de comunicação, individualização de um atelier de pintura artística, na melhoria dos equipamentos usados nos armazéns, na recuperação, restauro e criação de novos moldes e madres, entre outras medidas”.
Os mercados internacionais, sobretudo Estados Unidos, França, Alemanha e Dinamarca, representam atualmente 60% das vendas da Bordalo Pinheiro (em 2009 representavam 35% da faturação). E há novos mercados, com grande potencialidade, para explorar, na América Latina.
Projetos para o futuro também não faltam, como explica ao DN Nuno Barra: “Temos vários projetos em curso, vários ligados à arte a ao design. Aliás lançámos recentemente e com grande sucesso, a coleção Sardinhas by Bordallo Pinheiro, que esta a ser um grande sucesso. Temos a continuação das coleções com artistas internacionais e muitos outros projetos que vão projetar a marca ainda mais a nível internacional. Queremos que a Bordallo seja uma marca ligada à arte e ao design, com produtos diferenciadores e sempre dentro do seu território/ADN para assim dar continuidade ao que Rafael idealizou.”

Sílvia Freches


Verde, que te quero couve

As peças de cerâmica representando folhas de couve estão entre as mais distintivas e reproduzidas das criações bordalianas. De tão apreciadas, foram adaptadas a pratos, tigelas, taças, chávenas e afins. Como a terrina em questão.
A Fábrica de Faianças Artísticas Bordalo Pinheiro é a preciosa herdeira da Fábrica de Louça das Caldas Fundada pelo genial desenhador e caricaturista Rafael Bordalo Pinheiro em 1884. Até à sua morte, em 1905, aí tentou um projecto artístico invulgar de investimento industrial e simultaneamente de procura de um certo espírito de ser português. Aí se continuam a reproduzir as peças dessa extraordinária colecção de faianças, inspirada e aumentada, dos pratos lagosta aos serviços repolho.

Verdadeiros rótulos de arte


Finalmente, um amor aos rótulos capaz de rivalizar com o nosso. O brasileiro Carlos Cabral começou aos 13 anos uma colecção dos de vinho do Porto que já vai nos nove mil exemplares. E muitos deles são “verdadeiras obras de arte”.

“Ao Observador, conta que Portugal é o único país no mundo que tem uma “representação líquida”. “O Porto é a maneira líquida de representar o português”, diz, divertido. E acrescenta: “O vinho do Porto deveria ser para Portugal aquilo que o Carnaval é para o Brasil.” Na hora de beber o seu vinho do Porto diário, Carlos Cabral tem o seu momento solene do dia. “São os meus cinco minutos de glória”, diz.”

sexta-feira, 8 de maio de 2015

Do amor aos aromas

O recanto onde Dom Pedro e Inês de Castro viveram um dos maiores amores de perdição de que há memória volta a dar que falar como sendo um dos raríssimos espaços urbanos a praticar agricultura biológica em toda a Europa Ocidental.

Os cerca de 2,5 hectares da Quinta do Paço, em plena cidade de Vila Nova de Gaia, recebe agora o projecto de Luís Alves, apaixonado desde petiz pelos prazeres das plantas, desde que o dia em que se lembra de deitar os olhos sobre o muro de uma aldeia. Rapaz urbano nascido no Porto, perdeu-se também ele de amores pelas plantas e cultiva agora mais de 150 espécies aromáticas, medicinais e condimentares.

Licenciado em Engenharia Agrícola, foi jardineiro na Fundação de Serralves e em 2002 criou, com Jorge Sá, o “Cantinho das Aromáticas”. Ali se introduzem técnicas computorizadas inovadoras, se desenvolvem investigações ao nível universitário, se cria uma linha própria, se exporta a granel e se vão coleccionando prémios. Com forte sentido pedagógico e comunitário, a empresa também criou um modelo de associativismo entre agricultores locais e tem cursos e eventos vários, ao correr do ano todo. Uma companhia rara, que produz da semente até ao produto final, e nunca dá o trabalho por terminado. Para breve, está o lançamento da tisana “Amor-Perpétuo” que homenageia a ligação intemporal dos antigos residentes, esses célebres Pedro e Inês.

Na revista UP




Coisas simpáticas que dizem sobre nós:

“Una tienda muy hermosa y un verdadero museo vivo del arte popular, jugando al mismo tiempo con la nostalgia y el humor - un verdadero regocijo!” Guia Trotamundos Lisboa

A Vida Portuguesa
Rua Anchieta 11
Chiado

quarta-feira, 6 de maio de 2015

"Não é lápis, é pincel, é o que se quiser"


"Não tem forma definida, parece plasticina de grafite, permite múltiplas texturas, obras em grande escala. Serve para desenhar e não só. É para profissionais e, no futuro, será para crianças curiosas em juntar cores. A nova criação da Viarco suja as mãos e não tem manual de instruções.

Estranha-se quando a pasta é colocada em cima da mesa sem rótulo, sem descrição de ingredientes, sem nome, sem livro de instruções. A massa está dentro de um saco plástico e parece um monte negro de plasticina. Toca-se, mexe-se, e é agradável ao toque, suja-se imediatamente as mãos — nada que não saia com água e sabão. Depois molda-se, entranha-se e trabalha-se sem limites, ao gosto da arte. Fazem-se bolas, quadrados, rectângulos, simula-se um pincel, tenta-se moldar um lápis e ataca-se a folha em branco para perceber as potencialidades do mais recente produto criado pela Viarco, a única fábrica que produz lápis em Portugal, instalada em São João da Madeira.

A artista plástica Alexandra de Pinho mete as mãos nessa espécie de pasta de grafite. Molda-a, experimenta-a no papel. A primeira reacção ao toque lembra-lhe a borracha que é usada para apagar grafite, mas este material faz precisamente o contrário. Cria, não apaga. “A sobreposição é conquistada gradualmente, com o carvão não se consegue isso”, comenta.
É mole, é grafite, parece argila, não tem forma e, por isso, pode ser o que o artista quiser. Pede papel com gramagem de mais de 500 gramas quando é misturada com água, ficando ainda mais escura na folha, quando se movimenta em meio líquido. Chama-se Art Graf N.º1 e estará no mercado dentro de um mês. Primeiro para profissionais das artes, depois, num tempo ainda a definir, surgirá com cores primárias especificamente para crianças que com bolinhas, ou outras formas, poderão juntar e criar tons.

Este material surge de vários comentários, conversas, opiniões que se foram registando, questionando, digerindo, maturando, testando. Há alguns anos, o pintor José Emídio bateu à porta da Viarco à procura de uma ferramenta que lhe permitisse fazer uma obra de grande escala e com traços grossos. O que encontrou não servia para o que pretendia. Depois disso, em conversas com artistas, José Miguel Araújo, dono da Viarco, percebeu que havia quem se questionasse por que razão não havia no mercado material de desenho e pintura para pessoas com problemas de motricidade fina. A ideia de uma plasticina que agarrasse um lápis ou um pincel foi mencionada em mais conversas com outros artistas. No ano passado, à última hora, José Miguel teve de substituir um artista plástico num workshop para miúdos no âmbito do Imaginarius – Festival Internacional de Teatro de Rua, de Santa Maria da Feira. Decidiu improvisar, levou um pedaço de grafite e colocou-o no meio da mesa. Foi a loucura. As crianças agarraram-se ao grafite, molharam-no em água, e começaram a desenhar.

A ilustradora Lara Luís começa por testar a massa de grafite como se fossem carimbos. As mãos estão sujas, mas isso não importa. E quem percebe da arte não borrata desenhos. Pressiona bolas e outras formas no papel. “As crianças vão gostar disso”, diz. A Viarco tem essa noção. Mas para criar as cores básicas nessa pasta mole é preciso ainda estudar e testar a concentração e quantidade de pigmentos.

Depois de pequenas bolas, de experimentar o que o produto permite em termos de texturas, de brincar com a massa, a ilustradora usa um pincel para desenhar uma das figuras das suas ilustrações — uma miúda de cabelos compridos e pretos. Não dá para moldar a pasta como se fosse um lápis para o traço mais fino? “É mole para bico de lápis”, responde. Para uma maior definição e detalhe serão precisas outras ferramentas. Lara Luís sai da sua zona de conforto em termos de materiais e não se sente perdida. Pelo contrário. “Dá para fazer muitas texturas. Este material consegue ser imensa coisa ao mesmo tempo”, conta. Não tarda muito e Lara Luís sente-se em casa. Percebe que aquela massa tem capacidades para fazer o que faz habitualmente com o pincel. “É incrível para texturas”, garante.

Percebe-se que a noção de escala é importante e adapta-se essa pasta a um desenho numa folha pequena. Alexandra de Pinho confessa que nunca usou um material tão maleável para desenhar. E não é nada habitual trabalhar com um instrumento que não existe, que tem de construir no momento. “Não há contacto directo com a base de trabalho, a não ser que se utilize os pincéis”, refere. Eles acabam por entrar na experiência para obter traços mais finos.

A Viarco não fecha os ouvidos a qualquer observação, crítica, sugestão e se José Miguel escuta duas vezes uma observação relacionada com alguma coisa relativa à sua área de negócio, então é porque mais gente anda a pensar no mesmo. Foi o que aconteceu neste novo produto. Não se limita a produzir lápis, gosta de inovar. “Gostamos de fazer diferente. Temos uma versatilidade e uma flexibilidade que muitos não têm. Muitos têm a máquina tão afinada que não produzem nada de diferente”, refere. Quanto à mais recente criação, José Miguel tem a sua opinião. “Isto é desenho e não é desenho, permite tudo.”

Alexandra de Pinho continua a testar o material, esboça o desenho de uma carta antiga, o tema que anda a explorar nas suas obras. “Quando surge um material novo como este, não há técnica, vale experimentar tudo”, afirma a artista que está habituada a colar e coser tecidos nas suas telas. O que tem nas mãos é um desafio. “Há muita liberdade de registo, não há restrições, não há limites e tem uma grande abrangência de texturas. Tem muito potencial e vai ser uma lufada de ar fresco”, avisa.
Este novo produto já anda em escolas secundárias e em universidades pela mão do artista plástico Ricardo Pistola, que no âmbito da sua tese de doutoramento em Educação Artística, apoiado pela Fundação para a Ciência e para a Tecnologia, está a testá-lo junto de alunos e também de artistas a quem pede que respondam a uma grelha de avaliação que criou para perceber as potencialidades do produto — os novos materiais da Viarco são uma parte do seu estudo académico.
O material é colocado à disposição sem indicações de utilização, sem manual de instruções. O objectivo é ver reacções e utilizações. Regra geral, brinca-se primeiro com a pasta, depois fricciona-se no papel para ver o que acontece, percebem-se texturas, os traços que podem surgir. Molda-se o que se quer, como se quer, para criar o que se quer. Quase todos desenham, mas nem sempre é assim. Ricardo Pistola viu alunos de escultura a criarem objectos escultóricos com essa pasta mole, sem qualquer risco na folha ou desenho para memória futura. “Uma vantagem deste material é de não ter referente em termos de instrumento de desenho. É versátil e não serve só para desenhar”, observa o artista.

Ricardo Pistola sente o corpo mais envolvido no desenho quando o artista tem de criar o seu próprio instrumento de trabalho. “O corpo envolve-se porque tem de reconstruir e redefinir o instrumento com que quer desenhar. É um híbrido que permite construir uma ferramenta. Molda-se, deixa-se secar e usa-se”, resume. Além das possibilidades que se conquistam no desenho em grande escala, há também a questão do tempo. Com uma ferramenta que pode ter a forma que se quer a cada segundo, a cada traço, a cada textura, Pistola considera que a percepção do tempo muda. Menos tempo para um trabalho de grande escala, talvez mais para desenhos de pormenor até a mão se habituar. “O tempo do desenho passa a ser diferente”, comenta.

O Art Graf n.º 1 chega ao mercado dentro de um mês em dois formatos. Já foi mostrado aos distribuidores internacionais da empresa e divulgado numa feira nos Estados Unidos no mês passado. José Miguel Araújo garante que o feedback tem sido positivo. Há já três países interessados em comercializar o material: Estados Unidos, Coreia e Austrália.

Neste campo, a fábrica de lápis tem uma filosofia muito própria. “A arte é um nicho de mercado. Nesse nicho há nichinhos e dentro desses nichinhos há um enorme mercado”, diz José Miguel Araújo. E, como em tudo, é preciso perceber como os conceitos se comportam no mundo real. “Primeiro surge a ideia, depois é preciso saber se conseguimos fazer. Se conseguimos fazer, temos de ver se funciona. Se funciona, temos de ver se tem impacto. E depois vamos às contas”, remata o dono da Viarco.”

Texto: Sara Dias Oliveira. Fotografia: Nelson Garrido.
Jornal Público.

terça-feira, 5 de maio de 2015

As exímias nisenses

Alturas houve em que as moças das diferentes proveniências do país se reconheciam por diferentes marcas - como a ostentação de ouro. As de Nisa, que começavam a trabalhar a agulha muito novas, sabia-se serem dali pelo seu trajar. No contexto do bordado português, quando se fala em Nisa, fala-se de um caso à parte, tantas são as técnicas de transformação e ornamentação têxtil - com os mais variados fins, técnicas de execução, tecidos, motivos e até palete cromática.

Com expressões sempre inspiradas, dos alinhavados aos desfiados, de um desenho mais infantil a outro mais elaborado, do bordado europeu à tecelagem tradicional, ou até dos caramelos ao bordado “de faixa”. Este, é reinventado agora pelo projecto “Kitty Olive”, que aplica a malas e carteiras uma técnica ancestral, de inspiração floral, que enfeitava cobertores mas depressa se estendeu às rodas das saias das camponesas, às capas dos pastores ou a reposteiros brasonados.

Favorável a tecidos mais grossos, como o feltro de lã, ganha vida com a aplicação de recortes decorativos e contrastantes com o tecido de base. E é feita ainda hoje por mestras artesãs cujas mãos continuam a provar ser verdadeiras as palavras do escritor Raul Proença: “rendas e bordados, em que as nisenses são exímias, abrindo caprichosos desenhos e variados pontos de agulha do mais perfeito acabamento”.

Kitty Olive no Intendente

"As malas Kitty Olive, inspiradas nas flores e nas técnicas ancestrais dos bordados de Nisa, são feitas à mão por artesãs, em feltro 100% lã."

Quem disse que as agulhas eram coisas de meninas?

“Por todo o século XVI e XVII se difunde, junto das jovens e senhoras das classes mais elevadas e abastadas, o gosto de bordar, uma actividade até aí quase exclusivamente masculina. Todavia, pode dizer-se que este bordado amador, doméstico e feminino, acompanhava o bordado feito profissionalmente, por homens, em oficinas próprias.”

Em “FIOS Formas e Memórias dos Tecidos, Rendas e Bordados” 
do Instituto do Emprego e Formação Profissional