sexta-feira, 15 de junho de 2012

Do ginjal



Dela se dizia ser "o segredo mais bem guardado do oeste" mas não há segredo que sempre dure. E a receita até pode estar fechada a sete chaves mas não há muito a fazer quando a fama se propaga num passe-a-palavra-deliciada, quando um produto tão nosso chega ao Japão ou quando o reconhecimento começa a trazer prémios. Como a distinção do "melhor dos melhores", atribuída por estes dias no primeiro Concurso de Licores Conventuais e Tradicionais Portugueses (inserido na Feira Naconal de Agricultura em Santarém) à Ginginha M.S.R..

As iniciais são as de Manuel de Sousa Ribeiro, que, tendo estudado em Inglatera muito antes da geração Erasmus, voltou a casa para se fixar em Alcobaça e trabalhar no sector de produção de vinhos e aguardentes, tornando-se num reputado especialista em vinho, vinagre e aguardente. E terá sido por essa altura que se lhe meteu na cabeça a ideia de criar um Licor de Ginja de excelência, desenvolvendo uma fórmula exclusiva como resposta à produção caseira tão em voga na época. Para tal, foi beber inspiração à tradição ancestral dos Monges de Cister, sem recorrer a corantes nem conservantes artesanais, nem abrir mão do carácter artesanal e da produção limitada que continuam a ser garantes de qualidade. E assim, em 1930 haveria de registar a marca Ginja M.S.R., que decidiu comercializar numa garrafa de formato cónico e design arrojado para a altura, desenvolvida por um farmacêutico.

Ainda hoje (já sob a designação David Pinto & Cª Lda.) a marca se continua a servir da excepcional ginja brava (ou cereja ácida, e em especial a variedade "Folha-no-pé", que é única no mundo) da zona de Alcobaça e arredores (que beneficia das condições edafoclimáticas únicas do clima temperado e húmido que se deve à proximidade do mar). E, depois de uma fase menos doce em que se colocou a hipótese de falência, em 2001 a empresa lançou-se num projecto pioneiro em Portugal, adoptando um modo de cultivo integrado que contribui para a preservação da biodiversidade ambiental. O ginjal voltou a florir e a natureza, mais o sábio curso das estações, continuam a fazer o resto.

Poda, floração, maturação e apanha são rematadas com a maceração dos frutos em cascos de madeira de carvalho francês, num longo repouso em água, álcool e açúcar. O resultado final, espremido numa prensa manual, é um licor rubi com nuances acastanhadas de aspecto límpido e graduação de 20% Vo. a 20ºC. Serve-se como digestivo ou em cocktails, é sempre delicioso com chocolate negro e quer-se à temperatura ambiente nos meses mais frios ou saído do frigorífico quando o calor aperta. E, o ano inteiro, sabe que nem ginjas!

2 comentários:

Liliana Costa disse...

E tao bom!!!

Rui Lobo Pereira disse...

Costumo deixar sempre uma de oferta aos meus amigos estrangeiros que passam pela casa na praia do Salgado.