domingo, 12 de outubro de 2014

"Preservar a história de muitas gerações"

"Foi uma noite de encontros, a que se viveu anteontem nas antigas instalações da Fábrica Confiança. Numa sessão comemorativa dos 120 anos da empresa de sabonetes e perfumes de Braga, dezenas de antigos e atuais operários, assim como todas as pessoas que de alguma forma se encontram ligadas à sua história, reuniram-se no edifício que sonham um dia ver convertido num museu onde possam eternizar todas as memórias de uma vida.
Dentro daquelas quatro paredes já só restam duas caldeiras, tetos oleados, que ficaram de uma centena de anos de laboração e algumas portas que se vão desmoronando. "Quando entrei aqui hoje (anteontem) fiquei com uma tristeza enorme. Isto está vazio". As palavras são de António Alves Meireles, um antigo funcionário que se recorda de 42 anos "maravilhosos", a maioria dos quais passados como encarregado da tipografia.
Vagueando pelos quatro cantos do edifício, agora em degradação, o antigo funcionário vai recordando os anos áureos da fábrica, "com quase 400 trabalhadores". Mas também não esquece os momentos de crises profundas. "A maior recordação que tenho foi em 1964 quando a fábrica esteve no momento de cair", conta, lamentando os dias em que chegou a não ter papel para imprimir os rótulos dos sabonetes.

Ao seu lado, o amigo José Peixoto, que há 61 anos trabalha na empresa, prefere falar das festas que se faziam e da camaradagem entre funcionários e patrões. "Tínhamos muitas regalias, não nos faltava nada. Havia muitas festas entre funcionários", afirma, relatando ainda, com orgulho, o facto de ter sido um dos responsáveis pela criação de um teatro na Confiança.
Cheios de recordações, a vontade destes dois amigos - e também dos descendentes dos fundadores da empresa - é que o edifício não se transforme num negócio, mas antes num museu que volta a receber tudo aquilo que foi "destruído". Gostava de ver a fábrica com máquinas", desabafa António Meireles, enquanto José peixoto defende que "ter toda a história à disposição das pessoas era fundamental".
A Câmara de Braga, detentora do edifício, diz que neste momento não pode garantir nada em relação ao futuro da Confiança. Para já, o presidente, Ricardo Rio, expressa apenas o interesse em alocar a sede da Associação Académica no espaço.

"Apito da fábrica ainda está no meu ouvido"

Chama-se Maria Teresa Pereira Barbosa e é uma das duas netas vivas de Manuel dos Santos Pereira, um dos fundadores da Confiança. Aos 86 anos, recorda como se fosse hoje o apito da fábrica que ditava a entrada dos trabalhadores, às 7.55 horas, e orgulha-se que as centenas de pessoas que por ali passaram fossem "as bem cheirosas da cidade".
"Havia quase um apartheid entre as funcionárias da empresa de chapéus que ficava à nossa frente e as saboneteiras da nossa fábrica. Elas cheiravam mal por causa das peles e as saboneteiras cheiravam que era uma delícia", conta Maria, que não esquece também a alegria destes trabalhadores na altura do Natal, quando recebiam uma semana a mais de ordenado, "muito raro nas outras empresas".
Já José António Barbosa lembra o sentido visionário do seu bisavô e a importância que teve na cidade. Por isso, reclama também que a antiga fábrica dê lugar a um museu que possa perpetuar uma história que já conta 120 anos.

História da Confiança em livro e tese

Rosalvo da Silva Almeida e manuel dos Santos Pereira tinham 21 e 22 anos, respectivamente, quando fundaram a Confiança, em 1894. Começou sem mão de obra especializada e a média de produção cifrava-se nas mil caixas de sabão por mês. Já na primeira metade do século XX, compram-se novas máquinas e os primeiros carros. A história da fábrica foi tese de doutoramento do designer Nuno Coelho, e inspirou o livro "Memórias da minha memória de Maria Barbosa.

O FUNDADOR
Manuel dos Santos Pereira foi quem esteve mais anos à frente da Confiança. Até 1944, durante os 20 anos seguintes, a empresa esteve a cargo de José Peixoto de Almeida filho do sócio. A partir de 1964, a família perde a fábrica."

Sandra Freitas, Jornal de Notícias

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