quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

A loja antes de ser loja



Foi no dia 3 de Novembro de 2006 que entrei pela primeira vez no número 11 da Rua Anchieta. Era fim de tarde e chovia. Foi o Pedro Serpa que se lembrou da existência deste armazém no Chiado, onde um dia viu uma peça de teatro. "Acho que era um armazém de perfumaria, estava cheio de rótulos antigos" disse-me. E foi no cabeleireiro Renzo, no primeiro andar, que consegui o telefone do proprietário.
Fora um armazém, desde 1904, da loja David & David, que ficava na Rua Garrett (actual Sisley). Vendiam tecidos, sedas nomeadamente, e também produtos de perfumaria, que eram aqui embalados. No início dos anos 80 foi subalugada a uma empresa de electricidades. Estava abandonada há muitos anos.
Estava tão extasiada que tremia e todas as fotografias dessa primeira visita estão desfocadas. Como a do senhorio, o Ricardo, que felizmente também estima este sítio especial. O aluguer era por três meses, apenas para uma loja temporária de Natal.
Voltei três dias mais tarde, já com o aluguer combinado. Agora de dia. O Manuel Reis veio comigo, nesta segunda visita. Olhámos. Eu, aflita com tanta porcaria, perguntava ansiosamente "pinta-se de branco?". E o Manuel disse: mas isto é lindo assim. Não pintas nada. Foi esta frase que "fez" a loja, que a decidiu. O lema foi guardar o tempo e olhar para o desastre como se fosse uma paisagem fascinante, portanto.
Na segunda sala, nada. A parte de trás já não tinha praticamente tecto. Uma zona onde funcionava um pequeno atelier de perfumaria. A casa de banho. O logradouro. No miolo do Chiado, uma aldeia antiga.
E lixo, lixo, lixo. Todo o lixo imaginável. Pelos cantos, objectos enigmáticos a surgirem um a um. Cada um com o seu mistério: o que é? Para que servia? Quem o usou? As preciosidades mais inesperadas. Um monte de moldes para os frascos de vidro dos perfumes. As campânulas de vidro espelhadas que hoje estão cheias de sabonetes. Duas vitrines, ideais para expor joalharia. E ainda lá estão. Guardámos tudo o que pudemos. Deixámos o letreiro da Seda a 14$50, ficou lá quase dois anos.
Nos tectos, nuvens de bolor. As ruínas de um armazém, porco e fantasmagórico. Havia restos de armários por todo o lado e também frascos de vidro cheios de pó de arroz, em todos os tons de rosa clarinho e pastel. Apenas dois frascos com o letreiro "Carmim". Durante a limpeza, alguém entrou e roubou-os. Tenho saudades deles.
Limpar foi a primeira coisa a fazer. Amigos e ajudantes apareceram para arrumar. O Manuel emprestou os candeeiros, que eram focos de um fotógrafo. Na primeira visita, o lixo era tanto que eu nem tinha dado por ele, mas tínhamos um balcão.
A 27 de Novembro de 2006 abrimos a porta. Com a equipa inicial: a Margarida, a Francy, a Vera Sachetti e a Ana Almeida - que já nos acompanhava na aventura há algum tempo. A mim e à minha sócia de então, a Isabel Cristina.
A segunda sala ainda não tinha armários e era uma exposição comemorativa dos 70 anos da Viarco. E a primeira parede de andorinhas Bordalo Pinheiro, obra do Manuel e do Raúl. Continuo a gostar de andorinhas.

1 comentário:

By Deva disse...

Parabéns antes de mais por darem vida ao vosso projecto, "A Vida Portuguesa" e ao armazém nº 11! Trabalhei alguns anos na Rua Anchieta no número 15 (Bertrand). É pena em Portugal deixarem morrer algumas preciosidades...
Mais uma vez Parabéns a Vida Portuguesa é um vivo recordar!