quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Dos teares de Maçaínhas



A revista Mutante foi desvendar o processo de fabrico dos nossos Cobertores de Papa. O relato, na voz de Maria Pratas, é pessoal e tocante:

"Tempo de frio. Na rua cheira a lareira que queima a lenha apanhada na serra durante o verão. Ao final do dia, agora noite, corremos para casa, arrastando agasalhos que trazemos no corpo e que parecem não ser suficientes. Cruzamo-nos com o pastor, com o cão e com as ovelhas churras, poucas e em vias de extinção, que servem para dar leite, porque a lã já quase ninguém a quer. As ovelha, no inverno, não se importam de deixar a serra e ficar nas terras baixas e nós não nos importamos de vir até às terras altas, as da Serra da Estrela. Acabamos juntos o resto do caminho até casa. O gado fica na loja e nós, subimos ao andar da casa onde escolhemos ficar uns dias, em Maçaínhas, perto da Guarda.

"Se a lã protege as ovelhas, também nos protege o corpo" e o "que nos guarda do frio, guarda-nos do calor"... e assim é. Aqui é a lã que cobre a cama. Sobre lençóis está um cobertor de papa. Dizia ela que "de noite o calor tinha peso". Eu acho que o peso era para eu não me levantar até de manhã...

E assim foi.
O cobertor de papa é também conhecido por manta lobeira ou cobertor de pêlo, por ser tecido com fio de lã churra de ovelha, uma lã grossa, mas macia. É produzido na Fábrica de Cobertores, fundada em 1966, por José Freire. Fica à beira da estrada, a caminho de Maçaínhas, num edifício velho e é hoje a última no país a fabricá-lo de forma artesanal. O último tecelão de cobertores de papa é o senhor Manuel Gonçalves.
Homem de muita idade, sentado no tear dedica-se, durante o verão, à tecelagem das mantas que se venderão durante o ano. Não o conhecemos, mas reconhecemos que das suas mãos sai arte em lã. A tecelagem destes cobertores é um processo complicado, as máquinas parecem geringonças, mas é uma arte. regista-se que a sua produção começou com D. Sancho II e que no princípio do século XX havia uns dez teares; nos anos 40 chegaram a ser mais de 30, só em Maçaínhas. Eram o sustento da família e, por isso, toda a aldeia fazia cobertores de papa quentes, densos e felpudos.
O seu fabrico passa por diversas fases: a lã é comprada aos pastores locais, é enviada para a fiação e só depois entra na fábrica já transformada em fio. É tecida num grande tear manual de madeira e depois segue para o pisão (máquina onde se aperta e pisa o tecido de lã, para o tornar mais macio e apertado, dando-lhe também mais consistência e compactagem) para lavar e feltrar, depois vai à carda (pente com dentes compridos e que serve para desembaraçar) para puxar o pêlo. de seguida, os cobertores são cortados e vão à râmbula (peça em ferro onde se prendem para ficarem com uma determinada medida). A sua produção é realizada nos meses mais quentes, a água fria do inverno é insuportável e os cobertores devem secar com bom tempo para garantir que a lã fique bem seca e ficarem mais direitos.
Um cobertor de papa pesa aproximadamente três quilos e tem as dimensões 2,40 m de comprimento e 1,70 m de largura. Distingue-se pelo pêlo comprido, pode ter uma só cor branco, a cor "barrenta" (branco e castanho) ou pode ter riscas de cor azul, verde e vermelho (destinado ao norte do país) ou fabricado com riscas de cor castanho, amarelo, verde e vermelho (mais típico do Ribatejo).
Por último, o cobertor é embalado e leva a etiqueta Freilã - cobertores e mantas de papa. 100% pura lã virgem.

Nós voltámos para casa com um cobertor de papa de riscas e novo, para juntar ao que era da minha avó, branco mas velho, porque duram uma vida. Ou duas. Ou mais.

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1 comentário:

fios de linha disse...

pela minha voz, escrevo:
obrigada pela partilha!

maria pratas